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Pelo direito de aplaudir quando quisermos (25/4/2016)
Por João Marcos Coelho

A blogueira finlandesa Janne Koskinen pinçou num programa recente do Centro de Música de Câmara de Paris o seguinte aviso: “Aplauda quando quiser!” O texto diz: “A moda do século 20 de não aplaudir entre os movimentos de uma obra é historicamente absurda. O silêncio não era obrigatório na época de Mozart”. Quem anotou isso foi o polêmico e ativíssimo jornalista inglês Norman Lebrecht em 13 de março passado.

O aviso está rigorosamente correto. Em geral invoca-se uma tradição de não se aplaudir entre os movimentos de uma obra. Qual tradição? Até a década de 1920 os compositores e músicos não gostavam do silêncio de ritual. Há dezenas de registros de compositores e músicos do século 19 preocupados porque o público não aplaudira entre os movimentos.

Gracias a Lebrecht e à blogueira finlandesa por poder tocar de novo neste assunto. Música não é ritual. Um concerto não precisa necessariamente ser visto como cerimônia religiosa de adoração da obra de arte.

A tradição que se costuma invocar é uma tradiçãozinha recente, implantada por Leopold Stokowski quando titular na Orquestra de Filadélfia, que assumiu em 1912. “Quando vê um quadro você não aplaude”, dizia o maestro.

Por que na ópera o público aplaude após uma performance notável de uma ária? Tudo se congela. A soprano ou o tenor agradecem ao público – podem até bisar a interpretação. Depois, retoma-se a trama. Maravilha. E por que não podemos aplaudir quando um pianista ou um violinista cria, improvisa uma cadência num concerto?

A ópera é um espetáculo muito mais vivo, espontâneo, em que o público tem o direito de demonstrar suas reações – aplaudindo freneticamente ou vaiando quando bem entender. O concerto não. É uma missa musical onde os fiéis – epa, público – só têm o direito de ouvir. Quietos.

Outro dia um músico me disse que aplaudir entre um movimento e outro tira a concentração deles. Ora, mas o trompista joga cuspe acumulado no instrumento; o clarinetista troca a palheta. Que concentração? Sei que muita gente não vai gostar. Mas como seria bom – e positivo – se fôssemos mais espontâneos durante os concertos.

Um derradeiro exemplo. Vivemos duas atmosferas completamente diferentes na apresentação recente da divina Angelika Kirchschlager na Sala São Paulo. Ela cantou quatro lieder de Schubert com acompanhamento de cordas. Eu queria aplaudir após o primeiro, mas todo mundo ficou quieto. Só aplaudiram no final dos quatro lieder. Já na segunda parte, o clima de opereta tomou conta do palco e da plateia. Todo mundo se descontraiu, tudo fluiu mais agradável na sala inteira. Dá o que pensar.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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