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Notas de leitura: A música antiga e a nova segundo Nietzsche (21/11/2008)
Por João Marcos Coelho

Provavelmente não existe leitura mais saborosa que a de livros de aforismos. Você se sente descompromissado em seguir qualquer ordem. Vagueia pelos textos curtos, pára onde quer. Desfruta de um livre arbítrio exemplar como leitor.

Os aforismos são textos curtos, às vezes de uma frase só, outras um ou dois parágrafos. Claro que esta não é uma arte para qualquer um. Raros são os que se notabilizaram no manejo dessas miniaturas que parecem conter um mundo inteiro de significado e abrangência. A tradição é longa e ilustre. O filósofo Friedrich Nietzsche, o jornalista vienense Karl Kraus e o filósofo e musicólogo Theodor Adorno são alguns dos mais brilhantes cultores desta forma literária e ensaística dificílima.

O caso de Nietzsche é um dos mais interessantes. Filósofo que fez da música núcleo central de toda a sua reflexão, cunhou talvez o mais conhecido aforismo sobre o tema: "A vida sem música seria um erro." Pois a Companhia das Letras acaba de lançar "Humano, Demasiado Humano II", de Nietzsche, em primorosa tradução de Paulo César de Souza.

Juro que não procurei os aforismos sobre música. Mas, de cara, topei com este, que cai como uma luva no nosso assunto: "Poder saborear também o contrário. - Para fruir uma obra do passado como seus contemporâneos a percebiam, é preciso ter no paladar o gosto então vigente, em relação ao qual ela se destacou."

Ora, como bem apontou o dublê de musicólogo e pianista Charles Rosen, perdemos a capacidade de apreciar com justeza a arte de Haydn, por exemplo. Só o vemos como versão preliminar da turbulência de Beethoven. Quase isso acontece também com Mozart. Perdemos a referência da intensa dramaticidade de suas últimas sinfonias, por exemplo, quando as ouvimos com ouvidos beethovenianos. Por isso, é fundamental a dica de Nietzsche: "devemos ter no paladar o gosto então vigente", para então, e só então, detectar em que "ela se destacou".

O livro divide-se em duas partes: "Opiniões e sentenças diversas" e "O andarilho e sua sombra". O filósofo também foi músico e compositor, venerou e depois renegou Wagner, trocando-o por Bizet em seu altar pessoal. Na segunda parte dedica alguns aforismos a compositores, do nº 149 a 169. De Bach, diz que ao ouvirmos sua música "temos a impressão de estar presentes quando Deus criou o mundo". Não é um elogio, como parece, porque ele acrescenta: "sentimos que algo grande está ali se formando, mas ainda não é: a nossa grande música moderna [...] Bach está no limiar da música européia (moderna), mas daí volta o olhar para a Idade Média". Prefiro ficar com o sentido do privilégio de presenciarmos a criação do mundo quando ouvimos Bach - uma sensação que me dá, por exemplo, ao assistir Glenn Gould em DVD interpretando as "Variações Goldberg" ou as cantatas na versão de John Eliot Gardiner.

O aforismo "Beethoven e Mozart" é exemplar. O primeiro faz "música sobre música": "numa canção de mendigos e crianças na rua, nas monótonas toadas de italianos erradios, na dança de uma taberna da aldeia, [Beethoven] juntava-as como uma abelha, captando ora aqui ora ali um som, uma breve seqüência. São, para ele, transfiguradas lembranças de um 'mundo melhor': tal como Platão concebia as idéias." Nietzsche não deixa dúvidas. Está com Mozart e não abre: "Mozart tem relação bem diferente com suas melodias: ele não acha suas inspirações ao ouvir música, mas ao olhar a vida, a agitada vida meridional: ele sempre sonhava com a Itália, quando não estava lá."

Sobre Schubert, é certeiro: "Se pudermos chamar Beethoven de o ouvinte ideal de um menestrel, Schubert terá o direito de considerar-se o menestrel ideal."

Na página 238, no aforismo "Sentimentalidade na música", ele explica por que a música nova é rejeitada: "quase toda música só começa a encantar ali onde nela ouvimos falar a linguagem do próprio passado: de modo que para o leigo toda música antiga parece cada vez melhor, e toda aquela recente parece ter pouco valor: pois não desperta ainda a 'sentimentalidade', que, como disse, é o mais essencial elemento de felicidade na música, para todo aquele que não consegue fruir puramente como artista essa arte." Touché.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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