Banner 468x60
Banner 180x60
Bom dia.
Segunda-Feira, 23 de Abril de 2018.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 

 
 
 
Amizades musicais, de ontem e de hoje (26/7/2016)
Por João Marcos Coelho

A tarefa de escolher repertório e comentar as obras de um compositor a cada mês, em duas entradas diárias, no “Rádio Metrópolis” e no “Tarde Cultura”, na Rádio Cultura FM, tem me obrigado gostosamente a revisar frases feitas e chavões envolvendo os grandes compositores do cânone clássico.

O caso mais recente é o de Franz Liszt, no qual estou trabalhando estas semanas. Como o cabra era “muderno”, diria um deputado nordestino. Ele foi um dos primeiros a descobrir, mapear e jogar o jogo do mercado nascente da indústria da música – encarnou a persona do virtuose diabólico do piano ao lado de Paganini no violino – entre 1830 e 1850. No momento em que a burguesia ascendente queria a todo custo obter a chancela de chique, ele atendeu a um público basicamente jovem em seus recitais. Adolescentes jogavam rosas no palco enquanto ele arrebentava cordas do piano com seu toque poderosíssimo e as tais cordas eram disputadas a tapa pelas adolescentes, que faziam pulseiras com elas. Improvisava sobre qualquer ária lírica que estava na boca do povo, à escolha do distinto público. Era o Wando da vez.


Retrato de Franz Liszt (1856) [Reprodução]

Esta é a imagem atual que temos dele. O que pouco ou nada se sabe é que Liszt foi também um músico absolutamente empenhado na divulgação da música de seu tempo. Um militante que Adorno aplaudiria sem reserva (não sei o que Adorno falou dele, provavelmente o desancou por causa de seu lado mercadológico). Digo isso porque é curioso que jamais se toque, em nossas salas de concerto, sua obra sinfônica. Afinal, suas duas sinfonias, Dante e Fausto, são muito interessantes – e os poemas sinfônicos com sua forma concisa também merecem ser ouvidos.

Um exemplo que me impactou. Em 4 de dezembro de 1836, Hector Berlioz, um músico durango e que precisava escrever em quatro jornais ao mesmo tempo para manter-se vivo, regeu no Conservatório de Paris um concerto com a Sinfonia fantástica tal como ele exigia que fosse feita: ao lado de Harold en Italie. Liszt, que já bancara a publicação da sua transcrição para piano solo da Fantástica, que saiu muito antes da partitura sinfônica, foi assistir ao concerto e escreveu sobre ele: “São duas belas e vastas composições de um artista que, aos olhos de muitos críticos, tem o grave defeito de ser contemporâneo e ousar tentar em seu tempo o que Haydn, Mozart e Beethoven fizeram no tempo deles”.

Caramba, como a frase é atual. Liszt já percebia, em plena década de 1830, com Beethoven morto pouquíssimos anos antes (1827), que a vida musical começava perigosamente a embicar para o passado, começando a mostrar hostilidade em relação às novas obras.

Para não alongar demais este texto, anoto ainda que, além disso, ele era de uma generosidade que não se encontra hoje em dia – quando o compadrio substitui a competência e o talento, e os capos daqui fazem troca-troca de concertos com os de lá, etc.,etc., num verdadeiro jogo de “famiglia”. Durante o período em que comandou a música em Weimar, entre 1847 e 1861, se não me engano, Liszt fez dois festivais Berlioz de uma semana cada um; e lamentou até o fim da vida não ter conseguido montar Les Troyens. E Berlioz? Nosso Hector jamais se dignou a reger uma obra sequer de seu benfeitor. Note-se que, neste caso, o toma-lá-dá-cá seria plenamente justificável, já que a obra sinfônica de Liszt também tinha valor.

Unia-os só uma coisa: a paixão pela música que se criava naquele momento. Como escreve Liszt a propósito da Haroldo e da Fantástica: “O gênio é a paciência, diz Buffon; quem poderia recusar isso a Berlioz? O gênio é a grandeza na novidade; o gênio é o pensamento criando sua forma; é o sentimento do infinito manifestando-se no finito. Ora, em quais obras musicais encontramos no mais alto grau a ousadia da inovação, a profundidade do pensamento e a riqueza de formas mais do que em Haroldo e no Episódio da vida de um artista?”

Não se fazem mais amizades musicais como antigamente. Infelizmente, agora, a coisa anda mais no andamento do toma-lá-dá-cá.

Para ouvir: Liszt sempre inovava: compôs e estreou Orpheus como prólogo que acrescentou à montagem da ópera Orfeo e Euridice, de Gluck, em Weimar, em 16 de fevereiro de 1854:





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

Mais Textos

Oito olhos azuis e muita música Por Jorge Coli (19/4/2018)
‘Missa’ de Bernstein é destaque no Theatro Municipal de São Paulo Por Nelson Rubens Kunze (10/4/2018)
“O Corego” e os primórdios da representação operística Por Camila Frésca (6/4/2018)
Natalie Dessay: uma expressão que transcende as palavras Por Irineu Franco Perpetuo (5/4/2018)
Os Músicos de Capella fazem primorosa ‘Paixão’ de Bach Por Nelson Rubens Kunze (29/3/2018)
A música não mente Por João Marcos Coelho (27/3/2018)
Enfim, uma sede para a Ospa! Por Nelson Rubens Kunze (26/3/2018)
A Osesp, Villa-Lobos e o “voo de galinha” Por João Marcos Coelho (23/3/2018)
Jan Lisiecki: para uma temporada de austeridade, um pianista nada austero Por Irineu Franco Perpetuo (14/3/2018)
“Lo Schiavo” em Campinas: encantamento e melancolia Por Jorge Coli (12/3/2018)
Villa-Lobos, a Semana de Arte Moderna e o Brasil Por Camila Frésca (8/3/2018)
“Sexta” de Mahler coroa trabalho artístico do Instituto Baccarelli Por Nelson Rubens Kunze (5/3/2018)
Hvorostovsky e um “Rigoletto” excepcional Por Jorge Coli (26/2/2018)
10 anos de Filarmônica de Minas Gerais: muito a comemorar Por Nelson Rubens Kunze (26/2/2018)
Ópera de Dubai e Louvre Abu Dhabi: arquitetura e conceito – parte 2 Por Camila Frésca (22/1/2018)
Ópera de Dubai e Louvre Abu Dhabi: arquitetura e conceito – parte 1 Por Camila Frésca (22/1/2018)
Relativizações, realidades e transformações: um olhar sobre “A flauta mágica” do Theatro Municipal Por João Luiz Sampaio (23/12/2017)
A produção é boa, mas faltou mágica na “Flauta” do Municipal Por Nelson Rubens Kunze (23/12/2017)
O prazer de ouvir Neymar Dias – muito bachiano e muito brasileiro Por Irineu Franco Perpetuo (20/12/2017)
Uma temporada inclusiva, feita com inteligência Por João Marcos Coelho (19/12/2017)
Uma grande e despretensiosa sátira Por João Luiz Sampaio (8/12/2017)
A goleada da Argentina (e nem precisaram do Messi) Por Nelson Rubens Kunze (8/12/2017)
Museu virtual reúne milhares de instrumentos de coleções britânicas Por Camila Frésca (4/12/2017)
Karnal, a Osesp e o governador Por Nelson Rubens Kunze (24/11/2017)
Quem não trafega nas redes sociais se trumbica Por João Marcos Coelho (24/11/2017)
Budu e Hilsdorf: nasce um duo Por Irineu Franco Perpetuo (14/11/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Abril 2018 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
1 2 3 4 5 6 7
8 9 10 11 12 13 14
15 16 17 18 19 20 21
22 23 24 25 26 27 28
29 30 1 2 3 4 5
 

 
São Paulo:

29/4/2018 - Coral Paulistano Mário de Andrade

Rio de Janeiro:
27/4/2018 - Ópera Um Baile de Máscaras, de Verdi

Outras Cidades:
29/4/2018 - Manaus, AM - XXI Festival Amazonas de Ópera
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2018 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046