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Osesp faz magnífico concerto com Stenz e Álvares (22/8/2016)
Por Jorge Coli

Apesar da crise, a temporada de concertos em São Paulo segue brilhante. Nessa esplêndida Sala São Paulo, dia 13 de agosto, o maestro alemão Markus Stenz, diretor da Netherlands Radio Philharmonic Orchestra (desde 2012) e “Principal Guest Conductor” da Baltimore Symphony Orchestra, regeu a Osesp em um notável concerto.

Abriu com Le Chaos, prólogo da “Symphonie de danse” intitulada Les Élements, de Jean-Féry Rebel (1666-1747). Obra surpreendente, cujos primeiros acordes são terrivelmente dissonantes, figurando o caos primordial. Pouco a pouco, a partitura nos conduz dessa desordem à ordem universal. Duas flautas se unem às cordas e ao baixo contínuo, dramatizando a trajetória. Perfeita transparência das cordas e o maestro lhes confere a grandeza elegante tão própria ao Grand Siècle.


A Osesp na Sala São Paulo [Divulgação / Natalia Kikuchi]

Que grande, excelente escolha foi a peça seguinte: Concerto nº 4 de Camargo Guarnieri, incompreensivelmente pouco amado de solistas e maestros. Datando de 1968, marcado pela técnica serial, ele surge como uma trágica erupção, na qual o impulso criador nunca falha. A agitação do primeiro painel, Resoluto, abriga uma cadência impressionante do piano. O movimento central, Profundamente triste – Vivo – Profundamente triste, acumula os contrastes. O final retoma a veemência de modo espetacular. Guarnieri eliminou os violinos, o que confere à orquestra cores sublinhadas, contrastantes. É uma excepcional composição; ao contrário de seus concertos precedentes, este não comporta os ritmos explícitos que despontam sobretudo nos últimos movimentos, testemunho de um nacionalismo datado. Nada disso neste nº 4: a citação de uma melodia do Rio Grande do Sul dissolve-se em achados artísticos superiores. Eis um cartão de visita que a Osesp poderia levar para suas turnês internacionais, oferecendo assim a imagem mais elevada da música brasileira.

Paulo Álvares foi o solista. Formado pela Universidade de São Paulo, apaixonado por música contemporânea, ele prosseguiu seus estudos nos Estados Unidos, e depois na Alemanha, onde reside. Trabalhou com Kagel, Lachenmann, Berio entre outros. Técnica impecável, energia vibrante, sentido perfeito do ritmo. Paulo Álvares deu como bis uma improvisação eletrizante, que entusiasmou o público.

Na segunda parte, foram escolhidos dois gênios do romantismo alemão: Mendelssohn e Schubert. De Mendelssohn ouviu-se a Meeresstille und glückliche Fahrt (Mar calmo e viagem feliz) que ilustra dois pequenos poemas de Goethe evocando uma travessia marítima. Belo momento que ofereceu ao maestro e à orquestra a possibilidade de desenvolver um tecido transparente de sons que se conclui por uma rutilante fanfarra de metais. Basta uma obra dessas, com tal regência, para atestar a grande qualidade da Osesp.

Em seguida, a Inacabada, de Schubert. Orquestra e maestro iniciaram por um comovente murmúrio pontuado pela pulsação das cordas graves. Adotando um andamento enérgico, Stenz obteve uma execução transparente, mas intensa, sem pathos e sem peso. Um longo silêncio feito de recolhimento acolheu a obra no final, antes que a audiência se expressasse numa ovação merecida.

Enfim, um bis de Kurt Weill, animado, reiterou o entusiasmo do público. Magnífica apresentação.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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