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Que “Brasil” mostramos ao mundo nos Jogos? (25/8/2016)
Por João Marcos Coelho

Prometi a mim mesmo. Tentei me conter diariamente nas últimas três semanas. Mas hoje de manhã, quinta-feira, dia 25 de agosto, ao ler um excelente texto do jornalista Luis Antonio Giron [Clique aqui para ler], não deu pra segurar mais. Que Brasil mostramos para o mundo via Jogos Olímpicos?

A resposta “oficial” das transmissões de TV é: um paraíso onde tudo de ruim vira tudo de bom num passe de mágica. Ou melhor, usando-se a palavra mágica “superação”. Eu não sabia, mas fiquei sabendo – junto com uns 3 bilhões de pessoas no globo – que somos um paraíso infiltrado num mundo injusto, perverso, onde morrem milhões de fome; onde as muitas guerras continuam matando a rodo; onde a corrupção corre solta; e onde de nada adianta eleger este ou aquele para o governo de um país específico se os políticos pouco ou nada podem fazer num jogo econômico cujo comando já saiu há muito tempo dos controles governamentais – pulou a cerca, está hoje na mãos das grandes corporações transnacionais.


[Foto: divulgação]

Quem assistiu a pelo menos algumas das transmissões pode até ter se emocionado com alguns jogos (p.ex., a final do vôlei masculino) ou performances sobrenaturais (Tiago Braz no salto com vara). Mas sem dúvida esqueceu-se de que estes atletas conquistaram o ouro apesar dos apoios oficiais, que se dizem efetivos, mas na verdade são fictícios. Quando existem, chegam minguados ao esporte (ainda ontem a PF deflagrou outra operação, desta vez de roubos descarados nas verbas do Ministério do Esporte destinadas a “estimular” nossos atletas olímpicos). Quando chegam. Na ressaca dos Jogos, segunda-feira desta semana, o medalhista de prata do tiro com pistola veio a púbico reclamar que cortaram uma bolsa-ajuda que é determinante para os atletas comprarem seus materiais de treino. Porque, vocês sabem, patrocínios só chegam pra quem já chegou lá sozinho.

Pra entrar no assunto da música, foi assim com o violoncelista Antonio Meneses. Ele pediu várias vezes a ajuda do governo brasileiro em 1982 para ir a Moscou competir no mais seleto concurso instrumental do mundo, o Tchaikovsky. Sabem quando chegou a resposta do governo? No dia seguinte a sua façanha, derrotando uma penca de russos e conquistando a medalha de ouro. Eta otoridades!

Volto ao motivo da minha revolta lá de cima. Qual Brasil musical “vendemos” ao mundo? Mais uma vez os cartões postais cariocas transformaram-se em ideais deste país continental. Bom gosto musical? Paulinho da Viola na abertura; Tom Jobim no encerramento. Ridícula a ideia de contratar uma carnavalesca pra cerimônia de encerramento. Ela, lógico, transformou o Maracanã num sambódromo, com carro alegórico.

Quando Gilberto Gil, o grande Gil, era ministro da Cultura, mandou Seu Jorge e escola de samba no ano do Brasil na França. Os próprios franceses se encarregaram de corrigir nossa miopia tropical: o governo pagou músicos brasileiros para apresentarem música contemporânea de compositores brasileiros.

Paulinho da Viola, Tom Jobim, Gil – são todos sensacionais, ninguém discute seu valor. Mas o Brasil não é só samba, suor e cerveja.

 





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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