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O brilho da Osesp nas mãos de Nathalie Stutzmann (26/9/2016)
Por Camila Frésca

Na noite de sábado, dia 22, a Osesp apresentou o segundo programa ao lado de Nathalie Stutzmann, que a partir dessa temporada, e pelos próximos três anos, será artista associada da casa. Nesta primeira visita, ela atua somente como regente, à frente de dois programas sinfônicos.

Na semana passada, Nathalie já havia subido ao palco para reger a Quarta sinfonia de Schubert e a Grande missa K.427 de Mozart. Foram excelentes interpretações, com destaque para as fantásticas sopranos que solaram na Missa – Ekateryna Siurina e Emöke Barath. As obras, grandiosas, despertaram palmas entusiasmadas do público.


Nathalie Stutzmann [Divulgação / Simon Fowler]

Ontem, foram três obras de menor porte, e ficou ainda mais evidente o trabalho que ela está desenvolvendo com a orquestra. A Osesp tocou maravilhosamente bem, desde os primeiros compassos da abertura da ópera O Rei de Ys, de Eduard Lalo – peça pouco executava por aqui e que, como Nathalie já havia adiantado em entrevista para a Revista CONCERTO [clique aqui para ler (apenas para assinantes)] mostra bem a proximidade do autor com a tradição germânica, especialmente Wagner. Estava preparado o clima para a segunda peça na noite, o popular Concerto para piano de Schumann. Além da qualidade da orquestra conduzida por Stutzmann, o público ficou eletrizado pelos solos da pianista Khatia Buniatishvili, que além de precisão e domínio técnico demonstrou toda uma gama de timbres e de riqueza interpretativa. Ovacionada pelo público, depois de encarar a meia hora de duração da obra, Buniatishili ainda deu um bis de fôlego: a Rapsódia húngara nº 2 de Liszt. (Foi na verdade um aperitivo para o recital que a artista fez no domingo, às 16h, e que teve ainda peças de Chopin, Ravel e Stravinsky.)

Era pra ter sido o clímax da noite e seguir-se, na segunda parte, um final leve e morno com a Sinfonia nº 1 de Bizet. Mas a obra, nas mãos de Stutzmann, foi muito além disso. Com extrema inteligência musical, ela acentuou o caráter clássico do primeiro movimento e o lirismo profundo do segundo, além de revelar os ecos operísticos do autor de Carmen nos movimentos finais da sinfonia.

Nathalie Stutzmann é conhecida internacionalmente, e também no Brasil, por seus excepcionais dotes como contralto. Talvez algum assinante da Osesp tenha se sentido frustrado quando percebeu que, nessa sua primeira visita, os dois programas apresentariam exclusivamente sua faceta de regente. Mas duvido que alguém tenha saído desapontado desses concertos. Pelo contrário, saiu surpreso e satisfeito ao reconhecer uma regente madura e completa, que extrai o melhor da orquestra e que, com sua inteligência e preparo, sabe dar aos músicos o caminho daquilo que não está escrito na partitura, mas que constitui a essência da obra.

Ao final do concerto, na sábado, todos pareciam extremamente satisfeitos: público, regente e até mesmo os músicos – algo, convenhamos, nem sempre fácil de acontecer.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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