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Nepomuceno, o internacionalista (31/10/2016)
Por João Marcos Coelho

Excepcional, sem dúvida, é a performance do Quarteto Carlos Gomes registrada no CD do Selo SESC contendo os três quartetos de cordas do compositor cearense Alberto Nepomuceno (1864-1920). A gravação vem obtendo unânime recepção crítica favorável – e com inteira justiça, já que o grupo liderado por Cláudio Cruz de fato faz um trabalho sensacional. Não só resgata estas importantes obras de Nepomuceno em leituras que daqui para a frente funcionarão como paradigma para todos os que decidirem interpretá-las. Coloca à disposição as partituras em edições digitais, resultado do minucioso trabalho de estabelecimento do texto musical.

Tudo isso, sem dúvida, é da maior importância. Mas o que me chamou mais atenção neste CD foi o texto assinado pelo compositor Flo Menezes. Ele se intitula “Nepomuceno: compositor... nacionalista?” Com sua retórica inflamada costumeira – e com sua rara inteligência, também igualmente constante –, o compositor chama a atenção para uma falsa afirmação que vem se repetindo ao longo do último século: o de que Nepomuceno foi um compositor nacionalista.


O compositor Alberto Nepomuceno [Reprodução / Acervo da Biblioteca Alberto Nepomuceno - Escola de Musica da UFRJ]

Vale a pena ler com atenção esta longa citação do texto de Flo: “Nepomuceno foi um internacionalista. Ao contrário do que a parca musicologia brasileira, ainda de resultados inconsistentes e fortemente impregnada pelo fardo nacionalista, pretenda nos fazer crer, afirmando-o como o primeiro dos compositores nacionalistas no Brasil, sua verve internacional contraria a visão que procura situar sua produção no estreito âmago das fronteiras nacionais. Assim fazendo-o, a musicologia reduz as amplas fronteiras que cobrem nosso vasto território a um domínio pequenininho, provinciano e nada condizente com a envergadura da obra de Nepomuceno”.

Como diz Flo, “os quartetos de Nepomuceno não são apenas modernos, como também revelam um enorme talento, pari passu com o que de melhor havia em solo europeu”.  E aos que contra-atacarem dizendo que Nepomuceno imitou Brahms nestes quartetos compostos em seus primeiros anos europeus (entre 1889 e 1891, quando estudou em Berlim), Flo argumenta que “se Nepomuceno ‘imitou’ algum europeu (e imitar é tão legítimo em arte quanto salutar[...]), ele não o fez com o atraso de cerca de um século, tal como o fizeram os nacionalistas tardios da música brasileira do século 20, que além de não terem feito uma música brasileira, mas antes uma europeia do tipo clássica, tiveram como modelo a música europeia justamente do século 19!”.

Na mosca. Minha intenção com esta curta intervenção é apenas aguçar a curiosidade de vocês para a leitura do artigo na íntegra. Com um admirável bônus: a primorosa execução do Quarteto Carlos Gomes, que, não custa lembrar, conta com os experientes Cláudio Cruz e Adonhiran Reis aos violinos; Gabriel Marin à viola; e Alceu Reis ao violoncelo.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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