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Fim da Oficina de Curitiba: populismo da pior espécie (20/12/2016)
Por João Marcos Coelho

Em reportagem do jornal “Gazeta do Povo” de segunda-feira, dia 19 de dezembro, o novo prefeito de Curitiba, Rafael Greca, declarou de novo, ao ser diplomado: “Enquanto a saúde correr riscos não haverá música”. O absurdo desta equação é tão grande que não me contenho. Ele se refere ao cancelamento, que ele confirma, da 35ª edição da excelente Oficina de Música de Curitiba, evento que reuniria dezenas de professores vindos de vários países e brasileiros e centenas, muitas centenas de alunos entre 7 e 29 de janeiro próximo.


Ensaio durante a Oficina de Curitiba em 2016 [Divulgação]

A Oficina custa apenas R$ 1,5 milhão, conforme notícias veiculadas na imprensa. Ele está jogando para a plateia do andar de baixo, como diz o jornalista Elio Gaspari. Populismo mais idiota, impossível. Idiota, não, desculpem. Perverso. Greca sabe muito bem o que está fazendo. Ao adotar esta atitude, sabe que não perde votos. Em vez disso, é capaz até de aumentar seu índice de popularidade junto aos desavisados que raciocinam de modo simplista.

Ele sabe, claro, que a música – e a cultura, de modo amplo – anda de mãos dadas com a educação. E que nenhum povo vive sem educação e cultura. Principalmente povos a quem já se tirou quase tudo – ou não se dá quase nada, apenas os restos depois de separadas as mil e uma propinas: nem saneamento básico cerca de metade da população brasileira possui. Isso quer dizer esgoto tratado e água encanada.

Como música e cultura, saneamento básico não dá votos. Não havia um político mineiro que dizia que tudo que vai debaixo da terra não dá voto?

O pior é que Greca não está sozinho. Muitos outros prefeitos e governadores estão abusando do direito de “jogar para a plateia” cortando verbas e orçamentos já historicamente minúsculos destinados à cultura (menores ainda quando se olha para a música não-comercial, justamente aquela que mais depende de apoio oficial). Em São Paulo, a situação é caótica: Banda Sinfônica, Jazz Sinfônica e a Orquestra do Teatro São Pedro estão sendo retalhadas a golpes de demissões programadas para o “ano novo” (que ano novo, hein?). O inquérito do Teatro Municipal de São Paulo indiciou até o prefeito, além do maestro John Neschling e os demais funcionários da organização social. No Rio, a OSB mal subiu ao palco. Cá entre nós, se o funcionalismo em geral da cidade e do Estado do Rio de Janeiro não consegue receber, imaginem o que anda acontecendo com os músicos.

O show de horrores que se repete toda vez que se fala em crise é muito maior no segmento da música de concerto, erudita, clássica – seja lá o nome que se dê a ela. Por tudo isso, meus votos de feliz natal e próspero ano novo vão apenas para os músicos. Aos políticos, que 2017 lhes reserve o que lhes cabe de responsabilidade ética por esta tragédia anunciada.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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