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Opes abre temporada clássica no Theatro Municipal do Rio de Janeiro (23/3/2017)
Por Nelson Rubens Kunze

Fui ao Rio de Janeiro no fim de semana passado para assistir à estreia da temporada clássica da Orquestra Petrobras Sinfônica, a Opes, no Theatro Municipal. Casa lotada e um bom astral reforçaram a minha impressão de que a orquestra vem atravessando uma boa fase (o que, dadas as circunstâncias que acometem a cultura nacional – e especialmente o Rio de Janeiro –, não é nada desprezível).

Mas a boa fase não é por acaso, já que nos últimos anos a orquestra vem passando por um importante processo de transformação. Com empenho e criatividade, a Opes repensou a sua missão cultural delimitando três áreas: o “mundo clássico”, o “mundo urbano” e o “mundo pop”, cada uma com suas próprias séries e projetos. O mundo clássico é aquele normalmente associado a uma orquestra sinfônica, com o grande repertório erudito histórico na sala de concertos; o mudo urbano, por sua vez, é a orquestra conquistando novos espaços e públicos fora dos teatros, em séries em igrejas, parques ou shopping centers; já o mundo pop explora as interseções e permeabilidades entre a orquestra sinfônica e o mundo da música popular universal. [Dentro desse mundo pop, por exemplo, assisti em fevereiro passado, no Teatro Bradesco em São Paulo, ao concerto que a Opes realizou intitulado “Ventura Sinfônico”. Nele, acompanhada de dois cantores, a orquestra apresentou justamente o álbum “Ventura” do conjunto brasileiro de rock Los Hermanos. Bem realizado, bem tocado, com arranjos sofisticados e em interação direta com o público, o concerto foi um imenso sucesso (eu não acompanhei, cantando, as canções, mas não foi por falta de vontade; suspeito que eu era o único ali, entre aquelas mais de mil pessoas, que não sabia as letras de cor...).]

Mas, voltando ao Rio de Janeiro, o concerto de abertura da temporada da Opes foi igualmente um sucesso e demonstrou que a busca por novos públicos ou a investida na cultura popular não interferiu na qualidade da performance do mundo clássico. A apresentação, que teve regência do titular e diretor artístico da orquestra, Isaac Karabtchevsky, e participação do pianista Jean-Louis Steuerman, começou com o Concerto nº 24 em dó menor (K 491), de Mozart. Como diz Steuerman no programa em relação aos concertos de Mozart, este “é certamente o mais complexo em sua forma, harmonia e contraponto. Nenhum outro emprega tamanha orquestração e a escrita para sopros requer virtuosismo e grande arte”. E foi boa a interpretação de Steuerman, que, com consciência de estilo e elegância, logrou extrair um belo timbre do piano, acompanhado com sensibilidade e concentração pela Opes.

A segunda parte do programa ficou reservada a aberturas de óperas de Rossini: La gazza ladra, O barbeiro de Sevilha, A italiana em Argel, La scala di seta e Guilherme Tell. Rossini é aquele gênio inspirado que todos amamos. Com musicalidade natural e espontânea, sua música é rica e cheia de criatividade, e expressão imediata das mais variadas emoções humanas. A Opes e Karabtchevsky deram boa leitura às obras, com a verve que a partitura exige.

[Divulgação / Plínio Bariviera]

O programa dessa estreia é sugestivo de uma temporada variada e rica, que se caracteriza por um amplo leque de compositores e de obras dos mais variados estilos. Em suas séries do mundo clássico – Portinari e Djanira –, a Opes fará 8 programas ao longo do ano com obras como Don Juan e a Suíte do cavaleiro das rosas de Richard Strauss, sinfonias de Tchaikovsky (2ª), Bruckner (4ª), Sibelius (2ª) e Shostakovich (5ª) e concertos de Brahms (para violino op. 77), Khatchaturian (para piano op. 38), Strauss (para trompa op. 11) e Rachmaninov (para piano nº 1), além de autores brasileiros como Francisco Braga, Villa-Lobos e Lindembergue Cardoso. A temporada também celebra os 45 anos de história da orquestra – criada pelo maestro Armando Prazeres –, 30 anos dos quais em parceria com a Petrobras.

Sou daqueles que acreditam que uma cidade do tamanho e da importância do Rio de Janeiro deve ter uma orquestra em tempo integral voltada para isso que a Opes chama de “mundo clássico”. Mas não deixa de ser altamente elogiável – por seu compromisso cultural e social – a iniciativa da Opes de efetivamente se abrir para novos espaços, explorar repertórios mais populares e buscar outros públicos. A Opes já sempre se diferenciou por sua estrutura institucional, uma associação dirigida pelos próprios músicos e mantida por uma estatal, a Petrobras. Agora, a orquestra aponta novos caminhos em busca de uma existência mais sustentável no mundo contemporâneo.

[Nelson Rubens Kunze viajou ao Rio de Janeiro e assistiu ao concerto a convite da Orquestra Petrobras Sinfônica.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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