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Os extras contemporâneos de Isabelle Faust na Sala São Paulo (25/5/2017)
Por João Marcos Coelho

Individualmente, a violinista alemã Isabelle Faust, de 45 anos, e o pianista russo Alexander Melnikov, de 44, estão entre os melhores em seus instrumentos na cena internacional. Ela ainda mais do que ele. O duo existe há mais de uma década e gravou a integral das sonatas de Beethoven em 2008 para o selo Harmonia Mundi [veja aqui].

Isabelle e Alexander compartilharam por três noites – nos dias 21, 22 e 23 de maio – com o público paulistano, na Sala São Paulo, suas refinadíssimas interpretações dessas maravilhosas dez sonatas para violino e piano. Interpretações meticulosas, amadurecidas. Impecáveis.

No domingo, 21, eles encerraram o concerto com a Sonata nº 9, apelidada “a Kreutzer” e a mais famosa do ciclo beethoveniano. O último movimento da sonata é um fogoso Presto, grand finale para uma obra grandiosa.

Só assisti ao concerto do domingo. E confesso que saí antes do extra. Queria ficar com os sons da Kreutzer na cabeça. Fiquei sabendo depois pelo texto de Camila Frésca neste mesmo espaço [clique aqui para ler], que o duo tocou, de extra, o Noturno, de John Cage (1912-1992). A obra é de 1947, e nela ele explora as distinções de timbres entre os instrumentos. A escrita está cheia de ressonâncias sustentadas. Camila Frésca escreveu que parte do público retirou-se ruidosamente, atrapalhando quem se interessou por aquele extra no mínimo estranho.

Na segunda-feira, dia 22, eles interpretaram as seis sonatas intermediárias, de 6 a 8. Nos extras, abriram espaço para a música contemporânea, tocando a primeira das quatro peças opus 7 de Anton Webern (1883-1945). São quatro aforismos que juntos não chegam a 5 minutos. A primeira peça tem 9 compassos e 55 segundos. Não deve ter dado nem tempo de o público perceber que o extra era estranho. Quando começaram a sentir incômodo, ela terminou.

Na terça-feira, Isabelle e Alexander tocaram as sonatas restantes, incluindo a que leva o apelido “Primavera”, a quinta, por ser a mais haydniana, ou mozartiana, do ciclo. No extra, novo choque: Vertical Thought II, do norte-americano Morton Feldman (1926-1987), deve ter soado pra lá de estranha para um público que tinha assistido mais de uma hora de Beethoven, Nesta peça, dizia o parceiro de Cage, ele quis capturar “a respiração do som”. Muito mais aérea do que o noturno de seu amigo, este pensamento vertical soa estático. Nova debandada do público, provocada pela estranheza.

Com certeza, esta não é a melhor maneira de levar música contemporânea ao público. É, ao contrário, a melhor maneira de deixá-lo cada vez mais hostil à música do nosso tempo.


John Cage, Anton Webern e Morton Feldman [Reprodução]





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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