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Rameau em “dreadlocks” (11/7/2017)
Por Jorge Coli

Soweto é um subúrbio de Joanesburgo, na África do Sul. Tem hoje aproximadamente 1.300.000 habitantes. Seu nome soa africano, mas é uma sigla para South Western Townships. A palavra township está ligada, por suas origens, a um lugar com precárias condições de moradia e exclusão. Assim, Soweto constituiu-se, primordialmente, como um gueto subdesenvolvido destinado à população negra e carente, criado pelo apartheid.

Soweto concentrou revoltas, com consequentes repressões muito violentas, e tornou-se um símbolo da resistência ao apartheid. Continua pobre, muito pobre, e violenta.


Buskaid Soweto String Ensemble [Divulgação]

Este rápido resumo é uma introdução para o comentário que segue sobre o concerto do último dia 10, no Teatro do Sesc Bom Retiro, que estava lotado. Era a apresentação do Buskaid Soweto String Ensemble. Buskaid é um trust e uma escola criados pela maestrina e professora Rosemary Nalden. Escola de música, que funciona à noite, nos fins de semana e dias feriados – não fecha nunca, a não ser nas festas de fim de ano, conta Rosemary Nalden. Escola que formou centenas de instrumentistas oriundos de família com dificuldades econômicas. Rosemary Nalden explica: “O motivo mais importante para a existência de um projeto como Buskaid está em seu poder de transformar não apenas as vidas individuais, mas a comunidade inteira. A África do Sul é um país rico em criatividade e talento inexplorados. Foi comprovado muitas vezes que a música tem um impacto profundo e duradouro no desenvolvimento educacional geral das crianças, bem como o desenvolvimento do treinamento e no incentivo à realização da excelência. Muitas pessoas comentam o fato de que os estudantes de Buskaid são mais positivos, mais motivados, mais disciplinados e geralmente mais empenhados em melhorar suas vidas e as de sua comunidade. Ao afetar a vida de cada um de seus alunos, Buskaid tem uma influência profunda e um impacto inspirador na sociedade civil na África do Sul”. Aqui, o site da instituição: www.buskaid.org.za, para mais informações, e também para doações, já que o trust precisa de apoio privado.

O programa do concerto trazia o nome de cada músico que compunha essa orquestra de cordas. Nomes exóticos, bonitos, alguns de dificuldade inextricável para um falante de português, como Keatbetswe Ratshivhadelo ou Mzwandile Twala. No palco, alguns suntuosos penteados em dreadlock, e rostos jovens, algumas vezes muito jovens, trocando olhares atentos uns aos outros, ou aos gestos da maestrina.

De início, eclode a abertura da ópera Naís e danças das Les Indes Galantes, de Rameau. A compreensão estilística, o sentimento da flexibilidade rítmica exigida por esses sons de elegância cortesã brotam com naturalidade. Os jovens africanos encontraram o melhor fraseado, a pulsação mais adequada para tal música, escrita na primeira metade do século XVIII e destinada à aristocracia de Versalhes.

Eles também convergem com a mesma felicidade na interpretação de Sibelius ou Shostakovich. Karl Jenkins, o talentoso britânico que navega entre o rock e a música clássica, escreveu uma Suite Soweto para cordas, que foi revelada ao publico com belo fervor.

Impressionante a alternância dos solos que se sucediam com diversos intérpretes; e mais, no final, uma série de canções maravilhosamente cantadas individualmente por... vários instrumentistas, cujas vozes e expressividade nada tinham da improvisação amadora.

À emoção provocada pela música acrescentava-se outra, causada pelo investimento sincero dos jovens músicos. Estava ali, comprovada, a universalidade, além de fronteiras e culturas, da música que o Ocidente criou.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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