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Terceira edição do Festival Vermelhos consolida projeto cultural em Ilhabela (8/8/2017)
Por Camila Frésca

No último final de semana, acompanhei a abertura da terceira edição do Festival Vermelhos, no Centro Cultural Baía dos Vermelhos, em Ilhabela. Para ser mais exata, pude conferir as atrações do sábado e do domingo. A abertura em si, na sexta-feira dia 4 (com Cristian Budu e a São Paulo Cia. de Dança) foi prejudicada pela chuva e os fortes ventos, que fecharam durante todo o dia o serviço de balsa que faz a travessia entre São Sebastião e Ilhabela.

O local inspirador e os teatros integrados com a mata convidam a outro tipo de fruição musical. (Escrevi sobre a concepção geral do projeto este mês na Revista CONCERTO. Já Nelson Kunze falou sobre a edição anterior num artigo que você pode ler aqui.) Os concertos acontecem num clima mais informal, relaxado, e a longa duração de alguns se coaduna com a ideia de não se estar apenas desfrutando da música, mas da experiência total do espaço. Diferentemente de uma sala de concertos, as pessoas se sentem à vontade para gravar trechos das apresentações ou entrar e sair ao longo do espetáculo, sem prejuízo para o andamento do evento.

Os programas em geral duram mais de duas horas, já que na maioria das vezes músicos locais abrem as apresentações. No sábado, foram três programas diferentes. Pela manhã, no Anfiteatro da Floresta, o saxofonista Almir Clemente e Julio Bittencourt Jazz Trio, artistas da região, tocaram antes do recital de Lívia e Arthur Nestrovski. Músicos competentes, fizeram um show enxuto, de cerca de 20 minutos. A música instrumental brasileira contrastou bem com o duo de Lívia e Arthur, que fizeram uma linda apresentação. O repertório tinha canções de autoria própria mescladas a clássicos do cancioneiro brasileiro, bem como canções norte-americanas e lieder de Schubert e Schumann, em versões para o português de Arthur Nestrovski. Tudo em perfeita harmonia, inserido na tradição da canção brasileira. Lívia é excelente e tem tudo para ser uma de nossas grandes cantoras. O acompanhamento de seu pai ao violão é sóbrio e refinado, e o duo está perfeitamente integrado.

À tarde, o Anfiteatro ficou completamente lotado para conferir o violonista Yamandu Costa, que de fato esteve num grande dia, tocando com seu habitual virtuosismo composições próprias inspiradas na América Latina. Laércio Ilhabela, experiente violonista local, fez o show de abertura. Dessa vez, no entanto, a dobradinha não funcionou tão bem. Talvez pela falta de contraste entre as atrações, pela extensão do concerto de abertura ou ainda porque poucos violonistas sairiam em vantagem quando colocados em comparação direta com Yamandu Costa, como foi o caso.


Ute Lemper [Divulgação / Lydia Abud]

O concerto noturno ficou com a Orquestra Jazz Sinfônica. Sob regência de João Mauricio Galindo, o grupo acompanhou a cantora alemã Ute Lemper numa grande noite – Ute é uma entertainer admirável e conquistou o público com suas interpretações e histórias. A apresentação aconteceu no Teatro de Vermelhos, que comporta cerca de mil pessoas. Palco e plateia são cobertos, mas as laterais são abertas para a mata. O projeto lembra o do Auditório Cláudio Santoro, em Campos do Jordão, cuja planta original previa que as laterais fossem vazadas. O projeto acabou modificado, pois não era razoável fazer concertos em julho em Campos do Jordão num ambiente aberto. Em Ilhabela, ao contrário, mesmo em agosto isso não se mostrou um problema. A plateia circunda todo o palco, o que distribui bem os lugares e dá a sensação de nunca estarmos muito longe dos artistas.

No domingo de manhã, o mesmo espaço recebeu a Orquestra Jovem das Américas (YOA), sob regência de Carlos Miguel Prieto, fazendo o último concerto de sua turnê. O dia esteve bonito, com sol discreto (ótima surpresa para a previsão de um final de semana chuvoso). O público não foi tão numeroso quanto o da noite anterior e o concerto, praticamente sem amplificação, mostrou que a acústica do local é ótima para apresentações sinfônicas. Também ótima era a orquestra, formada por jovens de todo o continente e que fez uma excelente versão de Petrushka. Ricardo Castro solou com o grupo no Concerto para piano em sol maior de Ravel. Ele trabalha com a YOA, como professor, há vários anos. Assim, na hora do bis, convidou a jovem pianista cubana Lisa Maria Blanco para tocar a quatro mãos um trecho de Ma mère l’oye. O domingo terminou com mais um concerto duplo: primeiro um recital solo do pianista Aaron Goldberg, e em seguida o quarteto do saxofonista Leo Gandelman, que comemorou 30 anos de carreira.

O Festival Vermelhos tem algumas atividades ao longo da semana e outras atrações de peso no próximo final de semana. A intenção é tornar não apenas este evento, mas todo o Centro Baía dos Vermelhos um lugar sustentável do ponto de vista da produção e difusão cultural, com boa afluência de público. É fato que seus organizadores Samuel MacDowell, Giane Martins e Éser Menezes estão trabalhando duro para isso, e as primeiras edições do Festival Vermelhos parecem indicar que eles estão no caminho certo.

Próximas atrações do Festival Vermelhos
Egberto Gismonti – 11 de agosto (sexta-feira), às 20 horas
Antonio Menezes e André Mehmari – 12 de agosto (sábado), às 11 horas
Orquestra Jovem do Estado, Claudio Cruz – 12 de agosto (sábado), às 18 horas
Orquestra Sinfônica Municipal, Roberto Minczuk – 13 de agosto (domingo), às 11 horas

[Veja mais detalhes no Roteiro Musical.]

[Clique aqui para informações e ingressos.]

 

Veja outras fotos do Festival Vermelhos:

[Fotos: Divulgação / Lydia Abud]





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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