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Festejem Haydn e Mendelssohn, mas pelo amor de Deus não esqueçam os 50 anos de morte do Villa (12/1/2009)
Por João Marcos Coelho

Não está errado quem disser que a vida musical caminha de olho nas datas de nascimento e morte dos grandes compositores. E quando digo vida musical, não me refiro especificamente aos músicos ou aos freqüentadores de concertos e de gravações. A indústria é que pega estes ganchos como tábuas de salvação para incrementar as vendas. Não existe nenhuma motivação menos pecuniária ou mais desinteressada nestas intensas movimentações.
Agora mesmo, por exemplo, as combalidas gravadoras já se mexem para “comemorar” 1809 – ano em que morreu Josef Haydn e nasceu Félix Mendelssohn. São dois bicentenários de respeito. Há gestos desesperados, como a da RCA/Sony, que remexeu no fundo de seu catálogo (boa parte dele prestes a cair em domínio público) e lança uma caixa com 30 CDs de Haydn a módicos 70 dólares. Outro tanto deve acontecer com Mendelssohn – basta dar uma olhada no catálogo da holandesa Brilliant Records. E os 50 anos da morte de Villa-Lobos: como serão comemorados?
Não se trata de nacionalismo xenófobo. Ok, é sempre bom renovarmos nossos olhares e ouvidos para compositores como Haydn e Mendelssohn. O primeiro, o mínimo que merece é deixar de ser tratado como mero “precursor” de Mozart e Beethoven e ser visto como um compositor que, empregado dos Esterhazy, isolou-se do mundo musical europeu do seu tempo e praticamente “inventou” sozinho o quarteto de cordas e deu autonomia à sinfonia – dois gêneros capitais da música de concerto européia.
Naquela década de 10 do século 19, por aqui também respirávamos novos ares, com o período joanino. Pois foi Haydn o compositor objeto do primeiro livro sobre música publicado no Brasil: a “Notícia Histórica da Vida e das Obras de José Haydn”, de Joaquim Le Breton, chefe da missão artística francesa que veio ao Brasil no início do século 19. O livro originalmente era um discurso pronunciado por Le Breton no Instituto da França em 1810, um ano apenas após a morte de Haydn. Foi editado no Brasil em 1820, numa surpreendente edição que ultrapassa o nível de mera tradução. José da Silva Lisboa, o mais provável tradutor (a publicação brasileira não revelava o nome do tradutor), fez um verdadeiro trabalho musicológico ao acrescentar ao discurso original um prólogo e quatro apêndices (Ateliê Editorial, 2004, 100 páginas, R$ 18,00).  Lisboa contou ainda com as notas esclarecedoras de Sigismund Neukomm (1778-1858), ex-aluno de Haydn então vivendo no Rio de Janeiro.
De certo modo, Mendelssohn sofre do mesmo preconceito. Compositor certinho demais, superficial, escrevia tudo bonitinho, bem jeitoso – mas não tinha a chama dos grandes criadores. Este estereótipo felizmente pode e deve desmanchar-se neste ano de comemorações. Mendelssohn é bem mais do que o garoto-prodígio riquinho que jamais passou necessidade (era filho e neto de banqueiros) e teria feito no máximo música de segunda classe. Foi um dos mais revolucionários músicos de seu tempo: promoveu a afirmação do nacionalismo nascente germânico transformando Bach em pai do cânone da grande música alemã, em 1829, quando fez executar, depois de décadas, a “Paixão Segundo São Mateus” na Academia de Canto Berlim.
Há muito ainda que falar sobre ambos – teremos o ano inteiro para isso.
Mas, por favor, músicos, órgãos responsáveis pela cultura, secretários, ministro – todo mundo envolvido de uma ou de outra maneira com a música no país: 2009 também marca a passagem dos 50 anos da morte de Villa-Lobos. Esta é nossa efeméride mais importante, de longe. Precisamos falar mais do Villa, tocar e ouvir mais sua música. As gravações da Osesp de suas obras deveriam estar disponíveis gratuitamente para download. Sim, sei que os direitos autorais são um eterno problema quando se fala em gravar sua obras. Mas de algum modo deveria ser possível colocar ao alcance do público brasileiro, sem custo, os registros da Osesp e também, quem sabe, a integral da obra para piano agora completa por Sonia Rubinsky. Villa-Lobos merece.
Afinal, como o compositor Willy Corrêa de Oliveira disse em maio do ano passado, reconhecendo, numa virada sensacional de avaliação, Villa como o maior compositor brasileiro do século 20: “Em meio a um mundo tão cruel, alguém quis ser Villa-Lobos, acreditou-se predestinado e levou isso até a última consequência – a consequência de ter sido de fato Villa-Lobos é maravilhosa, pois ele foi um gênio. Ele não encontrou no mundo um material musical pra falar que as outras pessoas pudessem entender, não encontrou uma linguagem que os outros pudessem falar, como Mozart ou Beethoven encontraram. (...) O Villa teve que inventar tudo. Tanto as coisas maravilhosas quanto as coisas ruins,que ele talvez não distinguisse. Talvez ele ouvisse por igual; a gente é que distingue. Ele provavelmente tinha o mesmo carinho e devoção pelas coisas boas e ruins. O Villa só tinha os chorões. E mesmo assim foi um gênio tão grande como um Bela Bartok.”




João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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