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Osesp faz belo concerto com programa raro (9/8/2017)
Por Jorge Coli

Fugindo das eternas obras-primas, sempre repetidas nos concertos, a Osesp ofereceu, na semana passada, um programa raro. Isso graças ao maestro Giancarlo Guerrero, costarriquenho, poderoso, carismático, claríssimo em sua leitura, sem perder o fervor e o entusiasmo brilhante.

Eram três obras brasileiras, ou quatro, se contarmos o bis, e uma mexicana. Tenho sempre uma impressão de gueto quando os programas são assim isolados geograficamente – no caso América Latina –, mas vale, em particular para perceber alguns caminhos que os projetos nacionalistas tomaram em nosso continente durante o século XX.


O maestro Giancarlo Guerrero [Divulgação]

A primeira obra foi a Passacaglia, que Marlos Nobre compôs em 1997, destinada a homenagear o centenário da primeira instalação dos Maristas no Brasil – o final associa os hinos nacionais do Brasil e da França, país de onde aqueles religiosos educadores se originam.

A partitura vem sendo apresentada por orquestras nacionais e latino-americanas, sucesso talvez devido ao seu caráter espetacular, enfático. Seu espírito, com as citações folclóricas do Peixe vivo e da Prenda minha, parece nos levar de volta para mais de meio século, quer dizer, para os tempos da Carta aberta, escrita por Camargo Guarnieri. Fidelidade rumorosa a um velho espírito.

Seguiu-se o Concerto para harmônica e orquestra, de Villa-Lobos. A obra incorporou-se definitivamente ao repertório desse instrumento raro, a gaita. Já foi gravado por vários de seus virtuoses internacionais. E merece plenamente. É um esplendor de requintes, com dosagem cuidadosa entre o som delicado do instrumento e a pequena orquestra. Sua fusão com as madeiras demonstra plenamente, em registro muito suave, as razões pelas quais Villa-Lobos foi louvado como supremo orquestrador por Messiaen.

As composições de Villa-Lobos que surgiram depois da Segunda Guerra mundial têm uma inflexão precisa. Villa-Lobos torna-se mais próximo dos Estados Unidos do que da Europa, e sua inspiração nacionalista, que adquirira força oficial com o Estado Novo, desaparece. Mesmo em obras supostamente brasileiras, como a Sinfonia nº 10, e A floresta do Amazonas, a preocupação não é mais de um cenário onde um “espírito brasileiro” se funde com a grande música ocidental, como ocorreu com as Bachianas.

Agora, as ressonâncias são outras. O Concerto para harmônica foi encomendado por John Sebastian, célebre virtuose americano do instrumento. John Sebastian tomaria o caminho do blues e do rock.

Mas não é a gaita do blues que se ouve no concerto de Villa-Lobos. Há antes como que um eco da nostalgia própria à harmônica do western, tal como o cinema a veiculava. Isto inserido numa bela estrutura. A Osesp nuançou como só os conjuntos de alta categoria sabem fazer, e o solista José Staneck esteve no mesmo nível dessa altíssima qualidade musical.

Depois veio a Fantasia para saxofone e orquestra, também de Villa-Lobos, na excelente interpretação de Leo Gandelman. A obra foi escrita em 1948, mas estreada no Rio em 1951, por Wakdemar Szpilman, saxofonista de origem polonesa e naturalizado brasileiro. Mais luminosa e leve que a precedente, ela se tornou uma constante no repertório dos grandes saxofonistas clássicos. Villa-Lobos associou duas trompas à orquestra de cordas, e teceu invenções surpreendentes. Não conheço estudo que trate das relações de Villa-Lobos com a música de cinema, seria muito fascinante se alguém se debruçasse sobre a questão. Se no Concerto para harmônica ecoa o lamento nostálgico dos caubóis nas planícies, na Fantasia, particularmente no movimento central, lento, é o mundo do film noir que surge. Ao ouvir o trecho não é difícil, fechando os olhos, imaginar Sam Spade caminhando num cais noturno e sombrio. Que a obra tenha sido dedicada ao grande saxofonista francês Marcel Mule, já intérprete de Villa-Lobos nos Choros, em 1920, que ela venha com palavras francesas indicando o andamento, nada elimina o clima norte-americano.

A última peça programada foi a Sinfonia India, de Carlos Chávez. É breve, pelas dimensões mais próxima de uma abertura, e vincula-se ao espírito nacional ao incorporar melodias indígenas. Como no Uirapuru, de Villa-Lobos, a luz de A sagração da primavera perpassa pela obra.

Enfim, o maestro brindou o público com o celebérrimo Batuque, de Lorenzo Fernandez.
 
Que belo concerto!





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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