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Finalmente Dudamel “suja” mãos e batuta com a “política” (24/8/2017)
Por João Marcos Coelho

“Bem-vindo à política, Gustavo Dudamel.” Foi assim que o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, saudou ironicamente o maestro Gustavo Dudamel, titular da Filarmônica de Los Angeles e o produto mais reluzente de El Sistema, revolucionário projeto sociomusical implantado 40 anos atrás pelo maestro José Antonio Abreu, que hoje envolve dezenas de orquestras e cerca de 700.000 crianças, adolescentes e jovens profissionais.

 
O maestro Gustavo Dudamel [Divulgação]

A saudação integrou um dos discursos costumeiros de Maduro na TV estatal. No caso, o da última sexta-feira, dia 18. Na segunda, dia 21, Maduro cancelou uma turnê internacional da Orquestra Juvenil da Venezuela, reunindo os melhores do Sistema entre os 7 e os 14 anos, que seria regida por Dudamel em concertos inclusive nos Estados Unidos em setembro próximo – incluindo uma apoteose no Hollywood Bowl, num repertório de respeito: a Quinta Sinfonia de Prokofiev e “Short Ride in a Fast Machine”, de John Adams.

Este “troco” ao maestro, mais do que por causa de suas manifestações públicas clamando pelo fim dos distúrbios em seu país, que já provocaram dezenas de mortes e centenas de manifestantes espancados e presos, deveu-se, de fato, às articulações de bastidores de Dudamel junto a José Luis Rodríguez Zapatero, presidente da Espanha, para libertar o violinista Wuilly Arteaga, 23 anos, espancado e preso há três semanas por tocar o hino venezuelano durante protestos contra Maduro.

Arteaga, próximo de Dudamel, foi libertado antes, na quarta-feira, 16. Mas Maduro sentiu-se “traído” pelo garoto-propaganda erudito do chavismo. Na verdade, o prodígio da batuta demorou muito a se pronunciar sobre a caótica situação que vive seu país. Só pôs a boca no trombone quando o regime atingiu músicos.

Isso dá bem a medida de como agem os músicos clássicos em geral – sobretudo os maestros. Ninguém vê, ouve nem fala nada. Ao menos enquanto o status quo lhes favorece. O país pode ir à breca (como, aliás, parece que estamos indo) que ninguém fala nada. Aqui, em todo caso, é pior. Porque nem com tantos músicos atingidos com demissões percebe-se um mínimo de ativismo, de solidariedade.

Pode-se até dizer que para um maestro como Dudamel – que ganha cerca de 4,6 milhões de reais por ano (fonte: Lebrecht) – é fácil tomar partido, ou mesmo receber represálias de Caracas, quando está muitíssimo bem instalado em Los Angeles. Mas distância não é problema. Ele tem enfrentado manifestações hostis mesmo nos Estados Unidos.

Além disso, a oposição venezuelana o tem pressionado a manifestar-se porque El Sistema pode estar em sério risco de sobrevivência. E seus assessores também lhe vêm dizendo para tomar muito cuidado para “não ficar do lado errado”.

Encerrando: Maduro pode ter sido sarcástico ao dar as boas-vindas a Dudamel por sua entrada na política, mas é fato que boa parte dos músicos (e falo aqui mais dos que têm postos de mando) pratica sim uma política sub-reptícia, subterrânea, a fim de sobreviver. Na aparência, são todos apolíticos desde criancinhas. No fundo, no fundo, são piores do que Sarney – são sempre governo, não importa qual seja.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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