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Wagner de boa qualidade, mas sem lirismo e vigor dramático (4/9/2017)
Por Jorge Coli

Wagner não consegue encher a Sala São Paulo. Ou, pelo menos, não Tristão e Isolda. Ou, pelo menos, não o segundo ato de Tristão e Isolda.

A apresentação que ocorreu na última quarta-feira, dia 30 de agosto, mostrava um público ralo, à vista d’olhos, preenchendo apenas uns 60% das poltronas. Curioso é que algumas pessoas não conseguiram ingressos, informadas que foram de lotação esgotada. Mistério. Seja como for, não houve presença efetiva e maciça.


Osesp, com o maestro Richard Armstrong e solistas, interpretaram o segundo ato de Tristão e Isolda [Divulgação]

A apresentação foi de boa qualidade, como se costuma dizer quando falta entusiasmo, e teve um succès d’estime. Bons cantores, mas não de primeiríssima água. Rachel Nicholls, soprano inglês, com timbre um pouco duro, agudos difíceis e imprecisos, enfrentou o terrível papel de Isolda; Lars Cleveman, tenor sueco, voz clara e neutra, investiu em um Tristão lutando contra as massas sonoras; Katarina Karnéus, mezzo-soprano, ela também nascida na Suécia, deu alma a Brangäne – suas calorosas e belas características vocais foram reconhecidas pelos aplausos. Momento muito alto foi o monólogo do rei Marke, cantado por Peter Rose, esplêndido baixo britânico que impôs poderosa intensidade musical e emotiva, sendo acolhido por um triunfo. Menciono também o brasileiro João Vitor Ladeira, que deu vida com brilho ao pequeno papel de Melot.

Richard Armstrong regeu a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo com clareza. No início, algumas pequenas imprecisões não chegaram a macular a excelente sonoridade daquele conjunto. O lirismo tecia-se, poético... até que os dois protagonistas ficaram sozinhos, na longuíssima cena de amor. A concepção musical deslizou para uma regência rotineira e escolar, esvaziando a obra de emoções. O clima, o não sei quê mágico, não tem receita. Surge quando manda o deus da música. Grandes obras e bons intérpretes não são suficientes para assegurá-lo. É uma centelha que pode ou não incendiar. Com a entrada do rei Marke, o final palpitou de novo, arrebatando a todos, intérpretes e público, com bela intensidade que se manteve até os últimos acordes.

As observações acima não alteram o princípio da boa qualidade mencionada antes. Foi sempre um alto nível, para empregar outra expressão convencional. Mas a interpretação careceu de lirismo e vigor dramático.

Fui ao concerto lamentando que a ópera não fosse dada nos seus três atos. Ao término, percebi que tinha sido bem assim e, tal como resultou, o segundo ato bastava.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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