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Novo fôlego para a ópera no RS (8/9/2017)
Por Everton Cardoso

Num ano em que alguns dos principais teatros brasileiros passam por fases difíceis, a iniciativa da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, a Ospa, de montar uma ópera por si só já é meritória. Isso ganha mais relevo ainda se considerados dois aspectos. Primeiramente, esta não é uma companhia estável de encenações operísticas, então um espetáculo deste gênero lhes exige um trabalho que mexe substancialmente com a rotina de ensaios e concertos do conjunto e também demanda agregar uma variedade muito maior de profissionais e práticas. Ganha relevo, ainda, o fato de que esta é a segunda montagem lírica em anos consecutivos e se segue a uma boa versão de Don Pasquale, de Gaetano Donizetti, levada a palco no ano passado [leia aqui]. Foram, antes disso, 14 anos sem apresentar títulos do repertório lírico de forma encenada. A escolha da peça para este momento, aliás, foi um acerto: Don Giovanni, de Wolfgang Amadeus Mozart, que agrada espectadores iniciantes e experientes.


Cena da ópera Don Giovanni [Divulgação / Maí Yandara]

Já na entrada do Theatro São Pedro, para as récitas nos dias 26 e 27 de agosto, um sinal de que a cultura operística tem recebido mais atenção na capital gaúcha: o programa distribuído a quem entrasse na casa era mais robusto e mais cuidadosamente elaborado que o distribuído no ano passado. Outro inegável sinal dessa mudança na cultura da cidade é o próprio fato de as apresentações acontecerem na mais tradicional casa de Porto Alegre: o teatro que logo completará 160 anos teve, até os anos 1970, apresentações regulares de ópera; a construção de uma parede não estrutural no fosso da orquestra durante uma reforma impedia montagens que exigissem um conjunto musical muito numeroso. Depois de um ano de campanha encabeçada pelo diretor artístico da Ospa, Evandro Matté, a parede foi retirada e o espaço pode, novamente, receber montagens escolhidas por outros critérios que não os matemáticos. Em tempo: em Don Pasquale, em 2016, a saída foi colocar o conjunto orquestral no palco e fazer as cenas ocorrerem ao seu redor.

Uma das coisas que tornou a apresentação da peça de Mozart ainda mais interessante foi a boa execução musical. Havia, no teatro, um clima bastante festivo. Depois de uma década sem novas contratações, 27 músicos aprovados em concurso público realizado em 2014 foram finalmente nomeados para atuarem de forma fixa na Ospa, o que deve ter tido impacto sobre o ânimo e a dedicação do conjunto. Num momento como o que atualmente a produção cultural brasileira atravessa, isso é, sem dúvida, razão para muita comemoração e para renovar parte do otimismo. Convém ressaltar que a Ospa é uma das poucas fundações mantidas pelo Governo do Rio Grande do Sul que não corre risco de extinção – processo pelo qual passa, por exemplo, a Fundação Piratini, mantenedora da rádio FM Cultura e da TVE. Essa pujança da orquestra – que ainda ganhou uma bela sala de ensaios no começo deste ano – é um alento para quem, por estas terras sulinas, vê a produção cultural ser abalada pelo descaso das administrações públicas.

A concepção visual do espetáculo – enxuta, mas precisa – foi bastante competente e colaborou muito para que a experiência se tornasse mais intensa. A trama que trata do conquistador espanhol Don Juan foi posta, por opção do diretor cênico, Caetano Pimentel, num espaço e num lugar indefinidos. Talvez para nos alertar que elementos do libreto original do século XVIII nos assombram em 2017: ainda é preciso superar a violência contra as mulheres e mesmo o olhar da sociedade para elas como objeto sexual. Os cenários eram relativamente simples, mas não por isso menos eficientes. A cada cena, apenas uma porta ou um conjunto de mesa e cadeiras era posto em cena para dar suporte à narrativa. O posicionamento dos atores, aliado a boas atuações, porém, não deixou que essa economia desse uma sensação de esvaziamento da cena. Muito pelo contrário: deu abertura para uma leitura cheia de sentidos elaborados a partir da opção por uma visualidade sintética na medida e, por isso, potente. Essa construção foi realçada por uma boa iluminação. Em outros espetáculos cênicos com orquestras em Porto Alegre, as opções têm sido um tanto exageradas, muito mais apropriadas para shows musicais de outra natureza. Em Don Giovanni, a luz foi tão bem planejada que era quase imperceptível, mas dava conta de criar os climas necessários às cenas. Mais um sinal de avanço no sentido da qualificação e da consolidação de uma cultura operística local.

Também os figurinos foram bem escolhidos: chamavam atenção pela beleza e pela cuidadosa execução. Entre os dos homens da história, o do protagonista era exemplar. Era o único feito com um tecido que continha pequenos pontos brilhantes, que reluziam sob a luz. Era, pois, um recurso sutil, mas que o destacava do conjunto masculino. Isso ganhou mais força com a opção por uma paleta de tons essencialmente terrosos e sóbrios. Apenas no primeiro ato dois dos vestidos usados por personagens femininas destoavam dos demais: pareciam roupa cotidiana de passeio, sem muita elaboração. No conjunto, porém, a opção por talhes contemporâneos, mas deslocados por tecidos inusitados – tal como se via nos trajes masculinos com tafetás estampados pouco usuais no dia a dia dos homens, mas já vistos em passarelas e figurinos artísticos mais ousados. Essa associação de elementos, portanto, criava um jogo de inserção e deslocamento bastante interessante: colocava esses personagens ao mesmo tempo numa proximidade do sujeito comum, mas com certo deslocamento; seguia, pois, no rumo proposto pela montagem como um todo. O apuro visual, ainda, reforçava o tom comemorativo da noite – num momento que demanda resistências para se produzir artisticamente, uma apresentação sempre é motivo para se comemorar.


Cena da ópera Don Giovanni [Divulgação / Maí Yandara]

O elenco, de modo geral, dava mostras de bastante entrosamento e oferecia cenas divertidas e convincentes, sobretudo nos momentos em que solistas atuavam em conjuntos. Homero Velho, no papel título, tinha um ar canastrão que na maior parte do tempo lhe caía muito bem. O Leporello de Daniel Germano tinha, com uma interpretação bastante convincente e desenvolta, um ar mais cômico bastante adequado. Carla Cottini, como Zerlina, apresentava os traços de uma diva: roubava a cena com seu canto e com sua presença marcante. Mas foi quando o comendador voltou à cena no final do segundo ato que o impacto foi maior: Sávio Sperandio reapareceu como uma estátua que ganha vida – ele fora assassinado no começo do enredo. Com um canto muito vibrante, deu um fecho memorável ao espetáculo. Ainda, a Donna Elvira trazia à vida por Carolina Faria ganhou destaque dentro da proposta cênica do espetáculo: corporificava de maneira muito viva e com força a heroína feminina que se contrapõe ao conquistador; enfatizava, assim, a problematização do lugar e do papel da mulher presente tanto na narrativa quanto para além dela.

Sendo essa ópera uma comédia, as gargalhadas da plateia eram a prova de que tudo ali estava funcionando bem. No entanto, a concepção cênica não se deixou levar por esse traço do libreto e fez um esforço para manter a carga dramática contida tanto no texto quanto na musicalidade. Tivemos, assim, uma boa tradução dessa combinação entre o complexo, o intrincado, o engraçado, o estranho e o dramático tão frequentes na obra de Mozart. Ter desfrutado dessa experiência, portanto, foi motivo de alegria para o público porto-alegrense. Resta-nos otimismo e a expectativa para ver o que a orquestra nos trará em 2018; esperamos, ainda, que o conjunto não demore a reapresentar essas duas óperas que já nos fez chegar. Na trajetória ascendente que se percebe na cultura operística local, o desejo é sempre por mais e melhor.





Everton Cardoso - é jornalista, pesquisador e professor universitário. Atua como crítico de ópera no programa Nota Musical, da Rádio da Universidade (UFRGS, Porto Alegre - RS)

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Rio de Janeiro:
24/11/2017 - Orquestra Petrobras Sinfônica

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30/11/2017 - Manaus, AM - Teia Clássica, de Delibes/Tchaikovsky; e Petrushka, de Stravinsky
 




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