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Na estreia com a Osesp, Leonardo Hilsdorf encanta a Sala São Paulo (22/9/2017)
Por Irineu Franco Perpetuo

Obviamente, deve ser coincidência, e não pode haver relação de causa e efeito entre uma coisa e outra. Mesmo assim, não deixa de ser curioso que, em uma época de aperto financeiro, a Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo subitamente redescubra que seu passaporte é brasileiro, e passe a incluir uma quantidade maior de solistas nacionais em sua programação. A torcida, agora, é não apenas para que a Osesp readquira a merecida opulência monetária do passado, mas também para que, quando isso ocorrer, não se esqueça dos nomes locais que estão sendo tão úteis em período de dificuldade.


Osesp no ensaio, com Valentina Peleggi e o pianista Leonardo Hilsdorf [Divulgação / Diego Andrade]

Não, não se trata de exagero. É tão raro a brava sinfônica bandeirante convidar artistas do Brasil para sua temporada que na última quinta-feira, dia 21, perdi a conta do número de pessoas que vieram me perguntar, na Sala São Paulo, qual era a nacionalidade de Leonardo Hilsdorf, o pianista que tocava com a orquestra.

Pois acreditem: Hilsdorf é brasileiro. Ele vem me arrepiando desde o já distante ano de 2005, na primeira edição do Prelúdio, o concurso de música clássica da TV Cultura, quando apresentou leituras empolgantes dos segundos concertos de Saint-Saëns e Rachmaninov. Amealhou prêmios em diversos concursos nacionais e internacionais, radicou-se na Europa e, no ano passado, foi agraciado pela Revista CONCERTO com o Prêmio CONCERTO 2016, na categoria Jovem Talento.

Como não poderia deixar de ser, suas qualidades vêm chamando a atenção das orquestras brasileiras mais antenadas. Em 2016, fez sucesso com a OSB, tocando, em um mesmo programa, o quarto concerto de Beethoven e o segundo de Saint-Saëns – e já foi chamado para voltar, em 22 de outubro deste ano, por escolha dos músicos da orquestra, em uma das apresentações de retomada das atividades da OSB, na Sala Cecília Meireles, sob a batuta de Roberto Tibiriçá. A Filarmônica de Minas Gerais tampouco se fez de rogada, convidando-o, em julho último, para solar no Concerto nº 1, de Chopin, sob a batuta de seu titular, Fabio Mechetti. A Osesp poderia tê-lo programado para solar na turnê nacional de 2014, mas, jovem por jovem, preferiu o russo Dmitri Mayboroda, que, no mesmo ano, foi eliminado na primeira fase do Concurso Internacional de Piano do BNDES – enquanto Hilsdorf, na mesma competição, chegou à semifinal, faturando o prêmio de melhor intérprete de música brasileira.

Enfim, para sua já tardia estreia com a melhor orquestra de sua cidade natal, sob regência da maestrina Valentina Peleggi, Hilsdorf tocou um programa em que, à exceção de seu talento, tudo era reduzido – desde a duração (uma hora, sem intervalo) à dimensão da orquestra (que se conformava aos moldes do Classicismo vienense).

Sua primeira peça foi uma Fantasia concertante para piano e pequena orquestra, de pouco mais de seis minutos, do catarinense Edino Krieger – uma bem-vinda encomenda da Osesp, que Edino, em que pesem os problemas de visão que o acometeram, entregou com afinco e disciplina. Vazada no sóbrio neoclassicismo nacionalista que caracteriza a produção do compositor no último quarto de século, a fantasia foi defendida com convicção por Hilsdorf, e não deixou de ser emocionante ver Krieger, uma das figuras mais ativas e dinâmicas da música brasileira no pós-guerra, comparecer à Sala São Paulo para ouvir sua partitura, no esplendor dos 89 anos de idade, e se levantar para receber as justas ovações do público.

Em seguida, Mozart – e daí eu estava curioso. Afinal, sempre ouvi Hilsdorf no repertório ultra-virtuosístico do século XIX, e não fazia ideia de como ele se sairia ao ajustar sua sonoridade exuberante às convenções do universo setecentista.

Pois foi um primor. Em uma obra que o próprio Mozart, em carta ao pai, considerou que o fazia “suar”, o Concerto nº 15 em si bemol maior, K. 450, Hilsdorf exibiu luxos de refinamento e maturidade musical, cultivando texturas transparentes e um fraseado finamente articulado e profundamente expressivo.

Depois de conquistar todos os corações da Sala São Paulo com sua profunda sensibilidade no estilo clássico, Hilsdorf permitiu-se o pianismo exuberante novecentista no bis – a Paráfrase de concerto sobre Rigoletto, de Liszt. Virtuosismo, sim, mas nada de exageros retóricos. Sem ceder à tentação do kitsch, sua leitura da versão lisztiana do quarteto Bella figlia dell’amore, da ópera de Verdi, demonstrou que capacidade muscular e finesse não precisam ser características excludentes. Deu vontade de que regentes e cantores “verdianos” ouvissem a interpretação de Hilsdorf para, a partir dela, aprender como moldar as doces melodias do bel canto italiano.

Para quem não pôde ou não poderá conferir ao vivo a suprema musicalidade de Leonardo Hilsdorf nesta semana, uma notícia boa: em 11 de novembro, um sábado, ele volta ao palco da Sala São Paulo, para interpretar, ao lado de Cristian Budu, o concerto para dois pianos de Poulenc, com a Orquestra Sinfônica da USP, regida por Neil Thompson. O encontro desses dois virtuoses eletrizantes, cujos talentos foram moldados a dedo pelo consciencioso Eduardo Monteiro, tem tudo para ser histórico e inesquecível. Não dá para perder!





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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