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Uma grande e despretensiosa sátira (8/12/2017)
Por João Luiz Sampaio

Falar mal de Jacques Offenbach é um esporte antigo. Vá lá que, com os Contos de Hoffmann, no final de sua vida, ele inseriu seu nome de vez no repertório e no gosto de boa parte dos amantes da ópera. Mas o que dizer de suas incursões anteriores no mundo do teatro lírico? Bem, suas operetas já levaram na cabeça de todos os lados, de Bernard Shaw e seu veredito a respeito de uma música “travessa” e “largada” até o julgamento de críticos contemporâneos, para quem elas não passam de exercícios frívolos de relativa (ou nenhuma) invenção musical e significação teatral.

La Belle Hélène, apresentada ao longo da semana passada pelo Theatro São Pedro, seria um desses exercícios. Volta à Antiguidade para narrar, com humor e ironia, a história de Páris, aquele a quem foi prometida pelos deuses a mais bela das mulheres da Grécia, a Helena do título – colocando sobre o palco uma galeria de personagens que inclui o seu marido Menelau, o rei Agamenon e seu filho Orestes, o sacerdote Calcas, o herói Aquiles. Todos personagens míticos que, aqui, são relativizados em seus ideais de grandeza e valor, assumindo forma humana e caricata.


Cena de “La Belle Hélène” [Divulgação / Heloísa Bortz]

Jacques Offenbach era adepto da auto-ironia, mas isso não quer dizer que tenha sido exatamente um homem sem ambições. A certa altura, definiu a si próprio como membro de um nova geração à qual caberia a renovação do teatro musical. Enxergar em La Belle Hélène – ou mesmo em Os contos de Hoffmann – a concretização de tal feito seria exagero. Mas isso não quer dizer que suas operetas não consigam ser, como diz Jean Massin, citado pelo crítico e professor Lauro Machado Coelho no texto do programa, uma sátira dupla: de um lado, à sociedade em que ele viveu, a França do Segundo Império; de outro, à própria ópera e suas convenções.

La Belle Hélène tem amostras de ambas. O retrato dos deuses como figuras que carregam todos os vícios e frivolidades humanos dialoga com uma visão nada lisonjeira da corte de Napoleão III; da mesma forma, o compositor brinca com bom humor com as convenções do bel canto italiano e, mais do que isso, dá uma cutucada na ausência costumeira de correspondência entre significado musical e texto em passagens nas quais descrições banais como “o homem da maçã” ganham música de sofisticado corte romântico. Mais do que casos pontuais, no entanto, as armas de Offenbach estão na irreverência e no ritmo teatral que ele constrói, com um texto (aqui na tradução de Irineu Franco Perpetuo) que não apenas expõe situações esdrúxulas, como as leva, em muitos casos, ao exagero, como se carregassem em si a marca do improviso – ou, talvez seja melhor dizer, um sentimento de liberdade na maneira de olhar para o passado histórico e musical.

E é por isso que, apesar das pretensões de Offenbach, talvez seja a despretensão a melhor maneira de recriar no palco uma obra como La Belle Hélène. Encaixá-la em um conceito bem delimitado, estabelecendo historicamente o resgate da crítica de parte do século XIX a si mesmo e à Antiguidade ou então atualizando a trama como forma de crítica social e política a nosso tempo, de certa forma seria dar à narrativa amarras, que vão contra justamente esse senso de liberdade proposto pelo compositor. Nesse sentido, é eficiente a concepção do diretor Caetano Vilela. A partir de cenários abstratos de Duda Arruk, que evocam um ambiente antigo ao mesmo tempo em que se afastam dele, seu foco está na movimentação dos cantores, fazendo uso da caricatura (tanto na atuação como nos figurinos de Fause Haten) e de atualizações textuais em um ou outro momento, quando elas são possíveis e naturais. Aqui é fundamental também a leitura musical do maestro Cláudio Cruz, cuja atenção clara aos diferentes climas sugeridos pela música resulta em uma leitura fluente e teatral, em um dos melhores desempenhos da Orquestra do Theatro São Pedro.

A produção contou com membros do Ópera Studio da Escola de Música do Estado de São Paulo e da Academia de Ópera do Theatro São Pedro. São cantores, em teoria, que já passaram da fase inicial de estudos e estão em vias de profissionalização. Não é verdade em todos os casos. O resultado, de qualquer forma, é em geral homogêneo, mas destacam-se, pela maior segurança e pela presença de vozes melhor resolvidas tecnicamente, a soprano Gabriela Bueno como Helena e, em especial, o baixo Anderson Barbosa como Calcas, além da boa presença cênica de Raquel Paulin como Báquide, Miguel Nador como Agamenon e Vinicius Costa como Filocomo.





João Luiz Sampaio - é editor executivo da Revista CONCERTO e colaborador do jornal O Estado de S. Paulo

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