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Villa-Lobos, a Semana de Arte Moderna e o Brasil (8/3/2018)
Por Camila Frésca

O aniversário de Villa-Lobos é nesta semana, dia 5 de março. Mas no final de fevereiro, ao menos em São Paulo, a obra do compositor foi ouvida e analisada como em poucas oportunidades. Na Osesp, realizou-se o Festival Viva Villa!, com uma semana de concertos comemorando o fim da gravação da integral das sinfonias do compositor. E, no Centro de Pesquisa e Formação do Sesc, o evento “Semana de 22: olhares críticos”, dedicou vários dias para discutir aspectos de um acontecimento que marcaria a vida cultural brasileira, a Semana de Arte Moderna de São Paulo. Diferentes mesas abordaram questões como a construção dos sentidos e valores do evento ao longo do tempo; os personagens que ajudaram a moldar a Semana, embora nem sempre sejam lembrados em primeiro lugar, como Paulo Prado e Manuel Bandeira; as repercussões regionais provocadas ao longo do tempo e que foram fundamentais, por exemplo, para o movimento modernista em Minas Gerais; e mesas específicas para discutir as artes visuais, a literatura e a música. A curadoria do seminário foi do professor Marcos Antonio de Moraes, do IEB-USP, e de Maurício Trindade, do Sesc. Ao longo de todas as mesas, entre os dias 21 e 24, o público compareceu de maneira expressiva e participou ativamente. “O que mais me impressionou foi que todas as mesas, ao final, estavam pensando o nosso tempo”, conta Marcos. “Nós começávamos com uma perspectiva histórica, mas, no decorrer da discussão, as questões que se colocavam tinham a ver com o presente, com nossa realidade brasileira. Nesse sentido podemos perceber a força da Semana em sua permanecia e inquietude.”


O professor Marcos Antonio de Moraes, do IEB-USP, um dos curadores do seminário [Divulgação / Jean Paz]

Falar da música na Semana de Arte Moderna é, sobretudo, falar de Villa-Lobos. Além de algumas peças de autores franceses, Villa foi o grande destaque musical do evento, e sua participação foi fundamental para os desdobramentos seguintes de sua carreira – como a primeira viagem a Paris e uma mudança no rumo composicional, explorando mais conscientemente os elementos nacionais em sua música. A mesa dedicada à música encerrou o seminário e foi composta pela professora Flávia Toni (USP) e os pesquisadores Manoel Aranha Corrêa do Lago e Pedro Fragelli. Toni tratou da documentação arquivística existente sobre a Semana, bem como fez um paralelo entre a forma de organização do evento (a dinâmica das apresentações de palestras e música) e os salões literário-musicais paulistanos. Manoel Aranha falou sobre o surgimento das artes modernas na Europa e a situação brasileira antes da Semana, bem como chamou a atenção para algumas peças de Villa-Lobos tocadas no evento – como o Octeto (Danças africanas) e o Quarteto simbólico – e sua correspondência com a mais recente música moderna da época. Pedro Fragelli dedicou sua fala para mostrar a importância da música em Pauliceia desvairada, livro de Mário de Andrade considerado inaugural do modernismo.


O painel da música: os pesquisadores Manoel Aranha Corrêa do Lago, Flávia Toni e Pedro Fragelli [Divulgação / Jean Paz]

Na sequência dessa mesa, pôde-se ouvir algumas das músicas para piano solo tocadas na Semana. Tal privilégio ficou ainda mais interessante nas mãos do excelente Cristian Budu, que, mesmo sem as condições ideais de uma sala de concerto, fez um ótimo recital. Cristian abriu sua participação com D’Edriophtalma, de Eric Satie, peça que causou fúria em parte da audiência que compareceu à Semana de Arte Moderna por ser uma paródia da Marcha fúnebre de Chopin. A confusão, à época, rendeu até uma declaração de Guiomar Novaes (que participava do evento) reprovando a atitude. Cristian ainda interpretou Estampes, de Debussy, e, claro, Villa-Lobos: as três peças de Simples coletânea além de O ginete do pierrozinho (de O carnaval das crianças) e a Dança infernal. Foi a primeira vez que ele teve contato com as peças, de uma fase de Villa-Lobos hoje muito menos conhecida do que as composições das décadas de 1920 e 30. “Eu tinha contato com as obras posteriores do Villa-Lobos, mais, digamos, ‘abrasileiradas’”, revela Cristian. “No entanto, dá pra ver que ele já possui uma identidade, só que ela ainda não é tão forte como seria mais pra frente. Por isso, tentei interpretá-las pensando menos na influência do choro e mais em como ele olharia para Debussy ou Stravinsky”, explica.


O pianista Cristian Budu em recital [Divulgação / Jean Paz]

O seminário “Semana de 22: olhares críticos” marcou o início de um projeto maior, o “3 vezes 22”, uma parceria entre o Sesc, o IEB, a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin e a USP. De agora até 2022, diversos eventos estão programados para celebrar, discutir e reavaliar três momentos-chave de nossa história: 1822, o ano da Independência do Brasil; 1922, centenário da Independência e ano de realização da Semana de Arte Moderna; e os impasses e desafios de nossa época, simbolizados em 2022, quando os dois eventos passados comemoram centenários. “Apesar de ter entrado para o cânone, a Semana de Arte Moderna não foi um lugar de fixação das coisas, mas sim um lugar de questionamento, de proposição de novas coisas, de atualização de nosso pensamento. É nesse sentido que ela serve de eixo para uma série de discussões que não se esgotam no evento em si”, resume Marcos Antonio de Moraes.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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