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A música não mente (27/3/2018)
Por João Marcos Coelho

Escrevo na manhã de 27 de março, ainda impactado com as incríveis notícias e fatos dos últimos dez dias. Fatos acachapantes como o da desembargadora (recuso-me a citar seu nome) que espalhou mentiras e calúnias sobre Marielle Franco (as famigeradas “fake news”) e, não contente, ainda fez um ataque absurdo aos portadores da Síndrome de Down.

O STF, pago para julgar, simplesmente não julgou e empurrou com a barriga um habeas corpus que, de um jeito ou de outro, mudará a eleição presidencial. E os políticos, como sempre, continuam dizendo em público tudo que desdizem intramuros.

Nesse momento, estou me preparando para assistir hoje à noite à “Paixão segundo São João”, de Bach – uma inédita oportunidade de ver esta obra-prima tão marginalizada em relação à sua irmã ilustre, a “Paixão segundo São Mateus”, de modo inédito no dia certo, antecedendo a Sexta-feira Santa. Tá certo que no tempo de Bach ela foi executada na própria sexta-feira. Mas é inspirador compartilhar com Bach esta semana tão atribulada aqui nos trópicos. Sentir, mais do que perceber, que o ser humano não é este lixão que nos apresentam diariamente.


Johann Sebastian Bach [Reprodução]

Nesse momento, sou obrigado a repetir a expressão, também me vem à mente uma verdade indesmentível, que aprendi com o grande Jordí Savall: “A música não mente”. Vejam o que ele disse a respeito: “Na música, é impossível mentir, não existem equívocos. Fazer música com alguém implica simpatia, respeito, escuta, concordar com o diapasão do outro. Estas são condições necessárias para o diálogo humano. Nenhuma civilização pode desenvolver-se sem o respeito e a confiança mútua. O ódio é destrutivo. É preciso que o mundo tome um dia consciência desta verdade tão evidente”.

O ódio é destrutivo, sabemos bem disso. Então por que passamos a maior parte do tempo praticando este sentimento que corrói o pouco de bom que temos dentro de nós? Nesse sentido, as redes sociais são verdadeiros “criadouros” de ódios, xingamentos e veneno. Há, claro, o lado poliana das redes, onde todo mundo é absolutamente feliz, bem-sucedido, com seus pets, festas, conquistas e vísceras (as bonitas) constantemente expostas à visitação pública. Será tudo verdade? Outra notícia estarrecedora dos últimos dez dias: o Facebook usou informações de incautos 50 milhões de usuários do aplicativo.

Bem, voltemos à música e a Savall. Ele nos lembra que “dizia Miguel de Cervantes, por intermédio de Dom Quixote: ‘Onde há música não pode haver coisa má’. Mas podemos, depois de Auschwitz, acreditar ainda na capacidade da música e da beleza para nos tornar mais sensíveis e mais humanos? Certamente não, se formos apenas capazes de captar e desfrutar da sua dimensão estética; indiscutivelmente sim, se também formos capazes de perceber de forma plena a sua dimensão espiritual”.

Em seus projetos, Savall denuncia mazelas milenares, como no mais recente (“A rota da escravidão”), mas também exalta “a outra música”, aquela de séculos atrás que ficou recalcada em favor da chamada “grande música”.

Uma pitada final para você também pensar em tudo isso com consciência, mas também com esperança de que nós, as redes sociais, o mundo, os políticos, enfim, todos, tenhamos saída. O sociólogo norte-americano Richard Sennett, violoncelista de talento na juventude, colocou com enorme acerto em seu livro “Respeito” que devemos “tentar tornar a sociedade mais semelhante ao concerto de música: isso é, explorando as formas de se apresentar como iguais, e demonstrar respeito mútuo (...) [isso é difícil mesmo para os músicos] muitos músicos têm o impulso cooperativo, mas poucos conseguem traduzi-lo em som. Isso é ainda mais verdadeiro na vida social: existe um enorme abismo entre esperar agir bem em relação aos outros e agir bem de fato”.

É, se na política, economia, justiça, etc. etc. os chamados “profissionais” não mentissem, que bom seria.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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