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Os Músicos de Capella fazem primorosa ‘Paixão’ de Bach (29/3/2018)
Por Nelson Rubens Kunze

A Paixão segundo São João é uma das grandes obras do mestre do barroco alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750) e, assim, uma das grandes criações da música ocidental. A obra estreou em Leipzig, em 1724. (Em 1723, Bach havia assumido o serviço musical da Thomaskirche de Leipzig, como “Kantor”, e ali residiu por mais de 20 anos, produzindo um número impressionante de cantatas, oratórios e obras sacras.)

A Paixão segundo São João foi apresentada na última terça-feira, dia 27 de março na Sala São Paulo, em concerto extra-assinatura da Cultura Artística. A interpretação foi do excelente conjunto brasileiro Os Músicos de Capella, sob direção do violinista e maestro Luis Otávio Santos, em instrumentos de época, seguindo uma leitura historicamente informada. A obra é escrita para orquestra, baixo contínuo, solistas e coro. Sua estrutura alterna coros e árias interligadas pela narração cantada de um evangelista – um registro de tenor agudo com características vocais muito específicas. E foi sensacional o desempenho do evangelista Rodrigo del Pozo, cantor chileno que tem voz com cor e maleabilidade perfeitas, além de dicção e pronúncia do alemão irrepreensíveis. Del Pozo contou a história da crucificação de Cristo com o equilíbrio que o papel exige, sem histrionismos ou afetações. Um grande artista.

A apresentação, no geral, foi de alto nível. Luis Otávio Santos, que fez a direção do espetáculo, é músico de estatura internacional. Grande defensor e difusor da música historicamente informada – em que se busca reconstituir sonoridades e interpretações próprias da época em que as obras surgiram –, Santos é um de nossos músicos mais brilhantes. Conduziu a apresentação da cadeira do primeiro violino com uma ótima percepção dramática para os andamentos, imprimindo dinâmicas e articulações que resultaram em uma apresentação viva e orgânica. Logo o coro de abertura, com o ostinato do baixo e a célula motívica das semicolcheias, já foi de arrepiar.


Os Músicas de Capella na Sala São Paulo [Divulgação / Heloísa Bortz]

Os Músicos de Capella são excelentes instrumentistas, muitos deles conhecidos solistas. Foi emocionante ouvir a riqueza dos timbres barrocos, dos violinos às flautas (que, aliás, protagonizaram com a soprano Marília Vargas um dos muitos pontos altos do espetáculo na ária Ich folge dir gleichfalls). É preciso destacar mais um músico, o tecladista Alessandro Santoro (não por acaso colega de Luis Otávio desde os tempos em que estudavam no Conservatório Real de Haia). Santoro realizou a fundamental tarefa do baixo contínuo ao órgão, com grande sensibilidade e musicalidade, em simbiose absoluta com o evangelista, o coro e a orquestra.

Foi muito bom também o desempenho do coro, ao qual estavam integrados os solistas. Com apenas 12 vozes, soou coeso e bem articulado, dando um caráter de câmara à apresentação. Foram lindas e emocionantes as intervenções dos solistas: a soprano Marília Vargas (com senso estilístico e timbre luminoso), o contratenor Pedro Couri Neto, o tenor Jabez Lima e o barítono Marcelo Coutinho (com voz e inflexões muito adequadas).

Um espetáculo de alto nível para ficar na memória. Na concepção que tenho da obra, apenas estranhei um pouco a formação camerística do coro. Há uma ótima gravação do Bach Collegium do Japão, com direção de Masaaki Suzuki [disponível no YouTube], que também segue essa ideia reduzida do coro (ainda que eles fizeram com 16 vozes). Acredito que, se houvesse um coro um pouco mais encorpado – afinal, é a “turba” que cerca Jesus – , a dramaticidade do espetáculo cresceria sem prejuízo da ourivesaria do contraponto barroco, tão incrivelmente apresentada pelos Músicos de Capella.

[Para quem não assistiu – e também para quem assistiu – em dezembro tem mais: Os Músicos de Capella tocam as partes 1, 3 e 5 do “Oratório de Natal”, de Bach, em concerto extra-assinatura da Cultura Artística. Clique aqui para saber mais.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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