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Natalie Dessay: uma expressão que transcende as palavras (5/4/2018)
Por Irineu Franco Perpetuo

Foi com um misto de expectativa e apreensão que me encaminhei à Sala São Paulo na última quarta-feira, dia 4, para assistir à apresentação da soprano francesa Natalie Dessay, na abertura da série de concertos internacionais da Tucca - Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer.
 
Por um lado, havia a empolgação de finalmente ouvir ao vivo um ídolo de juventude. Por outro, a Dessay que aprendi a amar em gravações não mais existe: a intérprete intensa e ultra-virtuosística das coloraturas impossíveis da Lucia de Donizetti, da Olypmia de Offenbach, da Zerbinetta de Strauss, da Rainha da Noite mozartiana – um repertório que ela já não mais visita. Após passar por cirurgia vocal e abandonar definitivamente as montagens de ópera em 2013, o quanto ainda restava de arte na diva de 52 anos?

Dessay veio ao Brasil ao lado da mezzo soprano georgiana Stella Grigorian, 50, acompanhada pela pianista monegasca de sangue cingalês Shani Diluka, 40. Com primeira parte russa, e segunda francesa (cada uma com seu próprio figurino, comum às três artistas: vestido negro decotado na seção eslava, igualmente preto e estampado, com adorno de flor vermelha, na gaulesa), o repertório foi judiciosamente dividido em número igual de canções para ambas, incluindo alguns duetos.


Recital de Natalie Dessay e Stella Grigorian, acompanhadas pela pianista Shani Diluka [Divulgação]

Grigorian mostrou uma voz cheia, uniforme e bem projetada, que combinou de forma encantadora com a de Dessay em duetos como o belo Nuit sereine, da negligenciada ópera shakespeariana Béatrice et Bénédict, de Berlioz, e a inevitável Barcarola dos Contos de Hoffmann, de Offenbach, único bis da noite. Não custa lembrar que a Geórgia ocupa, no imaginário russo, a mesma posição da Espanha na simbologia da França ou da Alemanha – um lugar de temperaturas elevadas e paixões exaltadas. Além disso, Grigorian é mezzo, e tem em si a Carmen de Bizet. Não surpreende, assim, que tenha atingido seu ponto alto nos itens “hispânicos” do programa: a Serenata de Don Juan, de Tchaikóvski, Nuit d'Espagne, de Massenet, e Les Filles de Cadix, serelepe duo com Dessay que encerrou o programa. Por outro lado, especialmente na seção russa, fez falta uma diferenciação maior entre os itens intepretados.

E essa caracterização de cada canção como um mundo sonoro à parte é que fez a apresentação de Dessay tão especial. Articulando os fonemas russos com a mesma clareza dos de sua língua vocal, a artista lapidava cada frase com carinho, com uma busca de incessante de ataques e ressonâncias, timbres e coloridos. Sim, é verdade que, na primeira parte, ela tossiu aqui e ali quando não era sua vez de cantar, parecia incomodada por algo como um pigarro, e teve um pequeno problema em uma troca de registro em meio aos orientalismos de Plenívchis rózoi, soloviêi (O rouxinol encantado pela rosa), de Rimski-Kórsakov – resolvido com muito jogo de cintura e musicalidade.

Mas o que são esses pequenos detalhes diante da beleza evocativa do Clair de Lune, de Fauré, do aluvião de Vessênye vódy (Águas de primavera), de Rachmaninov, ou da rendição primorosa dos versos puchkinianos em Ne poi, krassávitsa (Não cante, oh bela), do mesmo autor? Isso para não falar no flerte com o sussurro de Zdies khorochó (Aqui é belo), também de Rachmaninov, de um intimismo vedado à ópera, e plenamente realizável no contexto de um recital.

Para o meu gosto, os destaques foram as duas vocalises: a de Rachmaninov, na primeira parte, e aquela “em forma de Habanera”, de Ravel, na segunda. Bem-humorada, Dessay disse ao público que essas canções sem texto favoreciam-na “por causa da memória”. Mas as razões de sua excelência nelas, obviamente, transcendem a piada. Livre das palavras, a soprano podia infundir no discurso de ambos os compositores sua própria semântica, moldar as frases segundo sua lógica puramente musical, sugerir afetos para além dos que podem ser exprimidos pelo verbo. Na ausência de versos, a poeta era a própria Dessay, ditando estrofes que a noite expandiu e ecoou.





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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