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“O Corego” e os primórdios da representação operística (6/4/2018)
Por Camila Frésca

Recém-lançado pela Edusp, O Corego – texto anônimo do século XVII sobre a arte da encenação, é uma peça fundamental para se compreender os primórdios do funcionamento e produção da ópera. Trata-se da primeira tradução para o português do manuscrito italiano anônimo Il Corago, escrito em torno de 1630 e destinado ao “corego”, uma espécie de diretor-geral de espetáculos. A edição do livro é resultado do trabalho de pós-doutorado de Ligiana Costa, cantora e musicóloga especializada em música antiga.

O texto de O Corego é voltado às representações cênico-musicais e seu autor foi testemunha das primeiras experiências operísticas e das tendências teatrais do início do século XVII. Conforme esclarece Ligiana na apresentação do trabalho, a datação do manuscrito não é exata e se apoia, por um lado, na citação de um evento de corte – a celebração do casamento de Odoaro Farnese, duque de Parma e Piacenza, com Margherita de’ Medici, ocorrida em 1628 – e, por outro, na ausência de qualquer menção a um evento definitivo para a história da ópera: a abertura do primeiro teatro público veneziano, em 1637. Isso porque o surgimento do teatro para pagantes modificou todo modo de produção do espetáculo. “A inexistência, em O Corego, de referências ao teatro público leva a crer que o texto tenha sido redigido antes de seu surgimento, e possivelmente explica o fato de não ter sido publicado em sua época. Afinal, pouco após sua redação, a dinâmica do modo de produção da ópera sofreu uma transformação profunda, tornando os pressupostos e as prescrições do tratado obsoletos, em descompasso com suas novas exigências”, afirma Ligiana. A importância do manuscrito, portanto, está em iluminar um período específico dos primórdios da ópera, logo após as primeiras experiências da Camerata Fiorentina e antes do espetáculo para o público pagante.

Se a tradução de um texto assim raro – a única edição moderna do manuscrito, que se encontra na Biblioteca Estense de Modena, foi feita em 1983 na Itália – já é preciosa por si só, esta edição traz algumas particularidades que aumentam ainda mais seu interesse. Uma delas é a reunião de estudos inéditos de sete pesquisadores brasileiros e estrangeiros – entre eles, o italiano Paolo Fabbri, reconhecido estudioso de dramaturgia musical e um dos organizadores da moderna edição italiana. As análises e informações adicionais ajudam a destrinchar o texto e trazê-lo para mais perto dos leitores do século XXI, abrindo portanto a possibilidade de leitura a um público mais amplo do que o dos especialistas.


Ilustração de George Gütlich para a tradução de Ligiana Costa [Reprodução]

Embora busque tratar da encenação em geral, O Corego é especialmente interessante para os pesquisadores da ópera. Conforme destaca Maya Suemi Lemos num dos ensaios do livro, “muito embora não seja nem específica nem declaradamente voltado para o drama per musica, sobre ele versam nove de seus 23 capítulos, o que nos dá a medida da importância da música na cultura cênica do período”. “Seu valor testemunhal aumenta pelo fato de, a despeito de seu caráter pretensamente prático, operacional, nele comparecem, mais ou menos veladamente, questões de ordem estética que animaram as discussões literárias e musicais entre o Cinquecento e Seiscento”, completa.

De fato, se é capaz de revelar ao leitor questões de cunho estético que impulsionaram as discussões do período, o texto tem ao mesmo tempo um caráter bastante prático, com indicações sobre palco, cenografia, atuação, música, coro, dança, figurinos, maquinário, iluminação etc. É aí que entra a outra particularidade desta edição, num trabalho ousado de reconstrução histórica: no capítulo dedicado às máquinas cênicas (referido pelo próprio autor como o mais importante do livro) e no dedicado à luz, são descritas tanto as máquinas de cena como as diversas maneiras de trocar a perspectiva e iluminar o palco, prometendo ao leitor desenhos elucidativos. Essas 43 imagens, no entanto, nunca foram localizadas – e talvez nunca tenham sido feitas. Ligiana Costa convidou o artista plástico e pesquisador George Gütlich a criá-los. Para Gütlich, “a falta de notações paralelas nas margens das folhas, como o nome do artista encarregado da interpretação ou da ordem da publicação, como o formato da impressão e os tipos, preocupações com o frontispício e a página de rosto, sem contar adjetivos necessários sobre a figura do editor, colaboram para a suspeita de que as imagens constituíam apenas um desejo”. A partir das descrições do próprio tratado e de tratados coevos, o artista faz uma bela recriação do que teriam sido os maquinários cênicos dos espetáculos da época.

Seja pelo ineditismo da tradução, seja pelos diferenciais desta caprichada edição, O Corego é um lançamento imprescindível a todos os estudiosos e especialistas em ópera.

[O Corego está disponível na Loja CLÁSSICOS – clique aqui para mais informações.]





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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