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Um "Faust" digno dos grandes teatros internacionais (2/5/2018)
Por Jorge Coli

Que prazer e que entusiasmo assistir à abertura do Festival Amazonas de Ópera, ressurgindo de suas cinzas com um espetáculo de categoria tão alta!

Luiz Malheiro, grande maestro e diretor artístico do Festival, nunca hesitou diante do enorme: já levou a cena, em Manaus, quase todo Wagner e obras nada modestas, como Les Troyens, de Berlioz. Para o ano de 2018, escolheu Faust, de Gounod, ópera complexa e ampla, musical e cenicamente.

O nível foi, de fato, muito elevado, começando pela qualidade da Amazonas Filarmônica, que se consagra dentre as melhores formações orquestrais do país. Bastou a breve introdução que precede o primeiro ato para que os ouvidos se convencessem da beleza aveludada que vinha das cordas e da fusão tímbrica que iriam servir, na naquela noite, a música sensual de Gounod. Malheiro soube criar as cores envolventes e mágicas dessa composição perturbadora e capitosa. Em suas intervenções, muitas vezes complexas, o Coral do Amazonas sustentou também a bela qualidade.

O quinteto protagonista foi, ao que tudo indica, escolhido a dedo. Começando pelo fato de que todos tinham uma pronúncia excelente do francês, o que é cada vez mais raro nos teatros do mundo.


Maquete digital do cenário realizado por Renato Theobaldo para “Fausto”, de Gounod, que abre o Festival Amazonas de Ópera [Divulgação / Render Panais Bouki]

Embora a ópera se chame Fausto, seu eixo é o demônio, na forma de Mefistófeles. Não é à toa que os baixos mais gloriosos, a começar por Chaliapin, sempre quiseram se ilustrar nesse papel. Em Manaus, o baixo-barítono chileno de origem cubana, Homero Perez, com bela carreira latino-americana, tem a autoridade e a escuridão necessária no seu timbre. É também um ator fenomenal, qualidade determinante para impor o personagem tremendo. Foi ideal do começo ao fim.

O tenor romano Alessandro Luciano encarnou o papel do título. Começou de maneira contida, de modo discreto, mas revelando, desde início, um timbre de pura maciez. Avançou com segurança e fez eclodir um magnífico agudo na cavatina do ato 3, a célebre “Salut! demeure chaste e pure”. Foi um excelente Fausto.

Marcelo Guzzo, uruguaio vivendo nos Estados Unidos, interpretou Valentin, o infeliz irmão de Marguerite. Esse barítono reúne todas as qualidades: voz poderosa, agudos fáceis, timbre viril, ótimo ator, estatura e beleza física; prova de que as fadas por vezes são excessivas com um único mortal. Tanto melhor para ele e para nós.

A intensidade desses três cantores foi crescendo ao longo da apresentação. O trio masculino do quarto ato, incandescente, formou um dos momentos formidáveis da apresentação.

Isabelle Sabrié é uma cantora francesa que escolheu a Amazônia como segunda pátria. Sua Marguerite tinha musicalidade elegante, grande técnica, timbre caloroso, homogêneo, voz bem assentada nos médios. Aqui e ali alguma dificuldade nos agudos extremos, provavelmente circunstancial e, em todo caso, irrelevante na qualidade total de sua interpretação.

Anna Gomá, espanhola, fez um encantador Siebel, gracioso, e um pequeno tropeço nas palavras ao começar os couplets das flores tornou-o ainda mais cativante. Parecia mesmo um adolescente tímido, desajeitado e cheio de amor. Dame Marthe foi firmemente cantada pela brasileira Thalita Azevedo.

Os cenários eram constituídos por módulos sugerindo arquitetura gótica. Eles se deslocavam em frente a um fundo figurando o pano de boca da Ópera Garnier, em Paris, o que, parece-me, remete à glória que Faust conheceu naquele teatro, desde sua estreia. Esses módulos formavam imagens lindas, algumas deslumbrantes, como a cena na igreja, imagens que rendem magnificamente nas fotos. Mas pareceram-me muito grandes para o palco do Teatro Amazonas e nas cenas coletivas – a quermesse, por exemplo – limitavam o deslocamento dos grupos, cuja direção, por sinal, não parecia muito cuidada.

André Heller-Lopes, diretor de cena com grande talento, não conseguiu fugir de clichês, um deles sendo a transposição dos figurinos para o século XIX. Jorge Lavelli causou grande impacto na renovação dos espetáculos líricos exatamente com um Faust, na ópera de Paris, transpondo-o para o mesmo período, o século XIX, isso... em 1975! Quantas vezes essa escolha já se repetiu, desde esse ano remoto? Outros clichês – chuvas de pétalas de rosa, bandeira da França no coro dos soldados, Marguerite com o filho nos braços (e Mefistófeles que assassina o filho da infeliz heroína, solução parecida com a de Kevin Newbury para a mesma ópera, em Chicago, em março passado. Menciono isto porque me parece a demonstração que as falsas ideias originais brotam facilmente aqui e ali. Se é Mefistófeles o responsável pela morte da criança, a grandeza paradoxal do perdão divino à mãe criminosa deixa de existir, porque não é ela a assassina! Um ponto crucial é que Mefistófeles pode manipular, mas não induzir a ações contrárias às vontades humanas. Sem contar que a ópera não prevê que o infanticídio ocorra à vista do público. É Fausto que, desesperado, mais tarde, na cena da prisão, proclama: “Seu pobre filho, ó Deus... Morto por ela!...” Mas por que se preocupar em esmiuçar assim o sentido da obra, quando se pode fazer uma cena de efeito? ).

Se, no primeiro ato, a alusão ao expressionismo do cinema alemão, em particular ao Nosferatu, de Murnau, criou um clima muito sugestivo, esse princípio se perdeu logo para ceder lugar à uma banalização convencional. Escrevo isso com pesar, porque não é apenas o caso de Heller-Lopes: são muitos bons diretores cênicos que deveriam voltar ao estudo aprofundado dos libretos e das músicas, buscando uma fusão orgânica com eles, esquecendo tanto os conceitos que são camisas de força, quanto os achados que se alinham mais ou menos soltos.

Depois dessas palavras, escritas de coração, é preciso ressaltar o seguinte: são pequenos senões, apenas, que assinalei. Muito pequenos. Eles em nada diminuem este Faust, digno de grandes teatros internacionais.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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