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Um matrimônio espirituoso, vivo e musical (8/5/2018)
Por Jorge Coli

Domenico Cimarosa, celebérrimo em vida, é um compositor que vem sendo recuperado depois de longo esquecimento, quando sobreviveu apenas, e de maneira intermitente, sua ópera mais célebre, Il matrimonio segreto. Não se trata ainda um revival, mas suas composições são interpretadas hoje com frequência maior.

É mais profundo do que se pensa. Escreveu, em sua maioria, óperas bufas, finas e risonhas. Mas Cimarosa guarda o substrato de melancolia que perpassa por toda arte do século 18 em seu crepúsculo. Tem o espírito aristocrático daquela época, para quem as grandes paixões e as grandes dores estão lá sempre, mas sempre disfarçadas.


[Divulgação / Pedro Sergio Ferreira]

Além de maravilhosas partituras alegres e jocosas como Il pittore parigino, La baronessa stramba, I due baroni di Rocca Azurra, Cimarosa atingiu verdadeira e nobre grandeza em algumas opere serie, entre elas a notável Gli Orazi e i Curiazi.

Il matrimonio segreto é uma obra sobre a frustração do desejo. De hábito, há um modelo: dois jovens querem se casar e um velho caquético se opõe. Ora, no Matrimonio, o casamento já foi realizado desde antes da ação, e o problema é acomodar os desejos daqueles que não têm parceiros.

Creio que há duas maneiras de montar Il matrimonio segreto: a requintada ou a truculenta. Ambas são boas e a música de Cimarosa se impõe com ambas.


[Divulgação / Heloisa Bortz]

A montagem de Caetano Vilela para a produção do Theatro São Pedro escolheu o segundo caminho, truculento, e foi muito engraçada, arrancando gargalhadas do público. Vestidos com roupas extravagantes, os personagens davam um tom de carnaval colorido. Esses figurinos, de Fause Haten, eram, sem dúvida, grotescos, mas mantinham-se paradoxalmente elegantes, apesar de toda caricatura. Vilela não hesitou diante de anacronismos, bom trunfo para provocar risos, muito apropriado para o teatro popular (no melhor sentido) que é o São Pedro. Mas soube, particularmente no sublime quarteto do primeiro ato, quando a música adquire sentimento grave, associar-se a esse tom, e graças a uma bela estratégia de iluminação, criar o clima adequado.

Penso que a maior qualidade dessa montagem é que os movimentos cênicos partiram de uma cuidadosa leitura da obra, brotando naturais e precisos. Os cenários criaram, no fundo, uma caixa retangular com seis compartimentos abertos, figurando cômodos da casa. Isso teve o mérito de confinar a ação diante do dispositivo, num espaço menor e próximo do público, o que convém a uma obra íntima como Il matrimonio segreto. Apenas a ideia de fazer os personagens, aos quais se acrescentaram figurantes no papel de criados, se movimentarem em cada um dos compartimentos do fundo, perturbou a atenção para a abertura e para as primeiras cenas – criando um “distanciamento brechtiano”, voluntário ou não, em todo caso, incômodo. Depois, essas atividades quase que cessaram completamente, e o dispositivo acabou servindo em alguns momentos, de modo eficaz, para a ação propriamente dita. Foi possível então saborear com concentração essa obra-prima.

[Divulgação / Pedro Sergio Ferreira]

Do ponto de vista musical, o triunfo maior é, sem dúvida, da maestrina Valentina Peleggi. Precisão da orquestra e uma cor seca, incisiva. “de época”; muito espírito na leitura, sem cair nunca na vulgaridade. Os cantores receberam uma aclamação: ótimos cenicamente, tinham vozes adequadas. Jean William foi um ágil Paolino, com bela projeção e timbre; faltando-lhe um melhor controle nos agudos, o que pode se obtido com mais estudo. O conde Robinson coube ao excelente Michel de Souza, que compôs uma figura hilariante de aristocrata. Pepes do Valle, com sua tarimba, fez um irresistível Gerônimo, o pai surdo. Caroline de Comi foi convincente por inteiro no papel de Carolina, a jovem sentimental: voz, físico e atuação excelentes. Joyce Martins deu conta do recado no papel da irmã feia, pretensiosa e ridícula. Enfim, com seu vozeirão, Ana Lúcia Benedetti teve uma vitória encarnando Fidalma, a tia assanhada.

Em suma, um Il matrimonio segreto espirituoso, vivo e musical.





Jorge Coli - é professor de História da Arte e da Cultura na Unicamp e colunista da Revista CONCERTO.

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