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Bolsa-Cultura (9/3/2009)
Por João Marcos Coelho

No momento em que o presidente Lula prepara-se para lançar o Bolsa-Habitação nos mesmos moldes do Bolsa-Família, acho que está mais do que na hora de o meio musical organizar-se e pedir – pedir não, exigir – a criação de uma Bolsa-Cultura.

Numa conversa dias atrás, meu interlocutor levantou uma questão que passa despercebida pela maioria das pessoas. Hoje em dia, os pais preocupam-se em pagar os estudos dos filhos, monitorá-los até que façam um curso superior – e aí sentem que sua missão está cumprida. A ausência de qualquer preocupação com uma formação holística de crianças e adolescentes cria profissionais míopes, que aprendem a manejar muito bem habilidades e técnicas específicas só para estarem aptos a preencher empregos futuros. Mas, afinal de contas, não estamos falando de robôs, e sim de seres humanos. E seres humanos necessitam de uma formação mais ampla, que lhes dê senso histórico, político, econômico... e também cultural deste mundo.

E quando falamos em cultura, aí metemos nossa colher musical. Pois a música é, entre as artes, aquela que mais exige de seus praticantes o respeito ao outro. Ou melhor, como afirma o dublê de sociólogo e violoncelista Richard Sennett, o músico só se define a si próprio se conseguir colocar-se no lugar do seu parceiro.  Num duo de violino e piano, se ambos não se ouvem, o resultado é um desastre. Agora multiplique isso por 50 ou mais e você terá uma orquestra sinfônica. Imagine só como é difícil de se obter de uma comunidade tão grande uma comunhão de objetivos e atenção redobrada entre os companheiros de naipe, em relação aos demais naipes... e em relação ao maestro.

Há momentos – e eles não são muitos, infelizmente – em que esta mágica acontece. Foi o que se viu na estreia de Yan Pascal Tortelier quinta-feira passada no concerto de abertura da temporada 2009 da Osesp. Pouco importa que as obras fossem batidas, convencionais. Quando esta mágica acontece, tudo se transfigura. (Só para constar: com John Neschling também tivemos muitos momentos eletrizantes como este.)

É este tipo de humanidade que a música costuma proporcionar tanto aos que a praticam quanto aos que a ouvem na sala de concertos. Uma humanidade construída a partir do respeito pelo outro, da superação de posturas fundamentalistas, de uma melhor compreensão da vida e do mundo.

Pode soar um tanto idealista, ou até mesmo vago demais. Mas falar de música, sabe-se, é como enxugar gelo. Levei até aqui este papo-cabeça só para tentar mostrar que as pessoas que têm fome, não têm o que vestir nem onde morar, também necessitam de um outro tipo de alimento – justamente o alimento artístico, que nos diferencia, afinal, dos animais irracionais.

Está certo que a cultura não costuma render tantos votos quanto a mesada mensal que muitos milhões de pessoas recebem em todo o país; imaginem o que vai render politicamente o bolsa-habitação, com suas prestações de R$ 15,00 a R$ 20,00.

Neste momento, vários projetos culturais de grande porte são cancelados por conta da crise; o orçamento do Ministério da Cultura é contingenciado, assim como o das secretarias estaduais e municipais de cultura. Num momento desses, se o governo investisse 3% – sim, só 3% – do que gasta no Bolsa-Família e do que vai investir no Bolsa-Habitação em estímulo às atividades artísticas de formação com seriedade, as próximas gerações de brasileiros seriam muito mais humanizadas. E praticariam com consciência o respeito.

Se você chegou até aqui na leitura destas modestas reflexões, obrigado pelo respeito. É assim que conseguiremos mudar este estado de coisas lamentáveis em que vivemos, onde a norma é o desrespeito à cultura. E à música. Bolsa-Cultura já!





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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