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Quando amizade não era vício (3/6/2009)
Por João Marcos Coelho

Sim, crianças, houve um tempo em que amizade não era vício. Numa época em que nos enojam as mil e uma declarações de políticos cínicos falando que possuem “o vício da amizade” para se safarem ilesos, é um bálsamo curtir uma amizade verdadeira, desinteressada – amizade que se intensifica só por causa do afeto, de uma afinidade puramente humana.

É esta a sensação que provoca a leitura da correspondência entre Mário de Andrade e o fazendeiro Pio Lourenço Corrêa, recém-publicada pelo Sesc em parceria com a Editora Ouro sobre Azul. Mário adorava descansar na fazenda de tio Pio, como o chamava – a mesma fazenda onde crescia uma das mais admiráveis mulheres e intelectuais brasileiras, Gilda de Mello e Souza. Ela morreu há quase quatro anos, em dezembro de 2005, mas ainda bem que se resgatou, neste livro, este seu belo ensaio introdutório sobre a correspondência (seu marido Antonio Cândido escreve um perfil biográfico de Pio).

Além de fazendeiro, Pio era um estudioso da língua e um homem de sólida formação cultural. E é neste reino que eles trocam muitas cartas. Mas é um diálogo completamente diferente daqueles notabilíssimos travados entre Mário & Manuel Bandeira, ou entre Mário & Carlos Drummond de Andrade. Nestes dois últimos casos, altas discussões estéticas, poéticas e musicais. Aqui, não. Com tio Pio, o papo corre ainda mais solto, leve e natural. Raramente resvala para a música.

Numa das cartas de uma amizade epistolar distribuída entre 1917 e 1945, quando Mário morreu, este começa assim: “Muito bom dia. Faz mais dum mês decerto que vivo acocando a idéia de lhe dizer este bom-dia por carta. Dizer bom-dia sem mais nada, só pelo desejo lírico de verificar objetivamente nossa existência conjunta de bons amigos. Porque na verdade não tenho no momento nenhum assunto que me obrigue a lhe escrever.”

Noutra, confessa, agradecendo um presente de tio Pio: “Não sei se a gratidão que tenho pelo sr. aumentou, é até possível que não. Nas amizades coerentes há muito do Nirvana: o que cai nele ou nelas, as e o alimenta. Mas nem o Nirvana nem as amizades crescem com o alimento, simplesmente porque pra serem coerentes consigo mesmos, Nirvana e amizades se libertam das medidas e conceitos temporâneos e espaciais. O que eu posso lhe oferecer em troco do presente valioso é mesmo só isso, umas palavras carinhosas. Quanto à permanência do sentimento, aí sim , temos que embarcar na ‘fordeca’ do tempo”.

As conversas em torno das palavras e da fala são particularmente fascinantes. Em carta do dia 16 de julho de 1928, Mário constata que “quanto mais abrasileiro minha fala, conseqüência natural da raça, mais minha frase se torna cafuza, confusa e escura”.

E o que tudo isso tem a ver com música? Tudo. Esta última frase do Mário, por exemplo, dizendo que sua fala/escrita torna-se “cafuza, confusa e escura”. São três adjetivos que colam à perfeição à produção musical deVilla-Lobos, tantas vezes medido com a régua europeia, quando deveria ser ouvido, analisado e avaliado segundo outros parâmetros, como alguns pesquisadores brasileiros recentemente andam apontando.

Mário sabia das coisas. No ensaio introdutório, Gilda, que brincava com tio Mário na fazenda de Araraquara, diz que lá era “a réplica rural da rua Lopes Chaves [casa de Mário na Barra Funda, em São Paulo]. Mais que em sua própria casa, é ali – ‘na paz sapientíssima da chácara’ –, no universo ordenado e protegido, que Mário trabalha com mais prazer”. Foi lá que ele escreveu “Macunaíma”. Em carta, diz que vai levar um ‘organete’ a Araraquara. Mas sossega o amigo: “o organete não será para tocar Wagner e a comparsaria da bulha”, mas para fazê-lo escutar as melodias do Brasil.

Gilda diz que Pio estava preso a um amor genérico pela verdade: “confia sem hesitação no ‘sol velhíssimo da verdade’. E por isso, eu acrescentaria, é que faz na correspondência com Mário a defesa da fotografia em detrimento da pintura, dando vivas à Kodak de Mário contra os ‘Caipiras Negaceando’ de Almeida Júnior... E desafia ‘o naturalista’ produzido pelo instantâneo fotográfico”. A resposta de Mário é poeticamente linda e paradoxal: “O que me interessa no caso não são as verdades, mas aquilo em que as verdades locais e episódicas iam se transformar, para mim, num dado de universalidade. E para isso eu deformava tudo, em proveito da ‘nova síntese’ que é a arte”.

Gilda, com quem tive o raro privilégio de estudar Estética no curso de Filosofia da USP, deve ter esboçado um meio-sorriso ao concluir: “Para Mário, era a verdade da arte x a mentira da vida; a deformação x a transposição fiel da realidade”.

P.S.: Você se lembra da última vez em que ligou, passou um e-mail ou procurou algum amigo sem nenhum outro desejo a não ser o de lhe desejar bom-dia?





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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