Críticos, sopranos, teatros... afinal, de quem é a culpa?

por João Luiz Sampaio 21/05/2014

Aconteceu de novo. Quase dez anos depois da soprano Deborah Voigt ser dispensada de uma montagem de Ariadne auf Naxos, de Strauss, por não caber em um certo vestido preto concebido pelo diretor, os atributos físicos de cantores de ópera voltam ao centro do debate – um debate raivoso, espalhado pela internet depois que críticos britânicos fizeram reparos à figura da mezzo soprano Tara Erraught, que interpreta Octavian na atual produção de O cavaleiro da rosa, também de Strauss, no Festival de Glyndebourne.

Os comentários dos críticos de jornais como Financial Times, The Telegraph ou The Guardian fazem uso de termos como “gordinha” ou “atarracada” para se referir a Tara. Convenhamos, são termos que não cabem em uma crítica de espetáculo, qualquer espetáculo, onde o respeito deveria ser sempre um parâmetro fundamental. Mais do que isso: sugerir que uma cantora acima do peso (segundo quais padrões, aliás?) é incapaz de interpretar um personagem que deveria ser atraente e sexy é uma redução rasteira.


Erraught em O cavaleiro da rosa do Festival de Glyndebourne [foto: Alastair Muir/divulgação]

Mas, em geral, as reações de cantores, artistas e outros críticos também estão repletas de equívocos e extremismos. A mezzo soprano Alice Coote, por exemplo, em texto publicado no blog do crítico Norman Lebrecht, afirma que a ópera é um espetáculo vocal e os demais elementos de uma produção não são tão importantes – o que contradiz a mistura de artes que está na essência do que faz da ópera um espetáculo tão especial e joga no lixo toda a investigação estética com a qual grandes produções contribuíram na nossa percepção do gênero. O próprio Lebrecht não ficou atrás e, em seu blog, sugeriu que os críticos em questão podem ser comparados àqueles que, nos anos 60, demonstravam desconforto com a presença de cantores negros em palcos como o Festival de Bayreuth.

De muitos dos comentários feitos nos últimos dias em jornais e blogs, surge uma questão de fundo: para que serve um crítico? Profissionais da crítica não estão acima do bem e do mal e o trabalho que desenvolvem poderia e deveria ser sempre tema de debates. Mas não da forma como as coisas são colocadas. A soprano inglesa Elisabeth Meister, por exemplo, afirma em seu site que não vê sentido algum na atividade crítica – e a opinião ecoa surpreendentemente pelas redes sociais, tanto no Brasil como lá fora. Em geral, pinta-se o seguinte quadro: críticos são profissionais despreparados e ignorantes, figuras frívolas em embate com artistas inspirados que dedicam anos, décadas talvez, ao estudo que lhes permite subir ao palco.

A relação infantilóide com a crítica sugere, no fundo, que crítico bom é aquele que fala bem – o que fala mal simplesmente não deveria existir, a não ser, claro, que mude de opinião em uma outra ocasião, quando todos os seus “pecados”, não importa o quão graves, serão perdoados. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Assim como há bons e maus cantores, há bons e maus críticos. Mas uma récita ruim não quer dizer que a ópera como um todo deveria ser extinta.

A questão envolvendo Tara Erraught é sensível. O mercado da ópera tem buscado se tornar mais atraente para o grande público, investindo nas transmissões no cinema e no mundo do HD, o que estaria levando a uma mudança no modo como cantores são escalados, colocando ênfase talvez grande demais nos atributos da encenação. Quais os limites desse caminho? É uma pergunta que deve ser feita enquanto a ópera navega pelo mundo contemporâneo, do qual ela, querendo ou não, faz parte. Mas culpar os críticos por todos os males e problemas é redutor ao extremo. A ópera merecia, de todos os lados, um debate um pouco mais sofisticado.

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