O ato de criação na Cortina de Ferro

por João Luiz Sampaio 24/06/2015

O pesquisador Marco Aurélio Scarpinella Bueno tem se dedicado à música do século XX e, em especial, à produção de autores do Leste Europeu. É uma paixão antiga ele diz, “mas como toda paixão, é difícil dizer como começou”. Seja como for, após escrever Schnittke: música para todos os tempos e Círculos de influência: a música na União Soviética, ele publica agora Sons por detrás da cortina: música no Leste Europeu durante a Guerra Fria. O lançamento será no sábado, nos Encontros Clássicos, na Sala São Paulo: a partir das 11h, o autor faz palestra ilustrada por trechos musicais e, em seguida, realiza sessão de autógrafos na Loja CLÁSSICOS.

“Talvez tudo tenha começado com Shostakovich. Sempre fui fascinado pela sua música e também pelo ser humano. A figura de um homem que vive pronto para ser preso a qualquer instante e ainda assim consegue criar me intrigava muito”, diz Scarpinella Bueno. “Em 2006, resolvi então escrever sobre ele, por conta do seu centenário. Na mesma época, no entanto, Lauro Machado Coelho estava trabalhando na sua biografia do compositor. Tomei coragem, me apresentei a ele, trocamos informações, gravações. O interessante é que, durante a pesquisa sobre Shostakovich, o nome de Schnittke sempre aparecia. Então, pensei: por que não escrever sobre ele? E assim começou a minha incursão por este universo”, explica.

Em Sons por detrás da cortina, após uma introdução que ajuda a contextualizar o período, Scarpinella Bueno organiza o livro em torno de capítulos dedicados a países ou compositores-chave na compreensão da música da época e, mais importante, o modo como ela se relacionou com o momento histórico. Estão presentes desde nomes consagrados, como Lutoslawski, Penderecki ou Ligeti, até figuras menos conhecidas, como Sándor Veress, Alexander Moyzes, Alois Hába, Emil Petrovics, Ivo Malec ou Horatiu Radulescu.

O pano de fundo do livro é a relação entre arte e política, mas Scarpinella Bueno ressalta: o mais importante, para ele, é o aspecto humano dos autores. “A ideia do artista que precisa trabalhar em um universo repleto de regras sobre o que se pode ou não fazer é fascinante. Como criar quando não se tem liberdade? É nesse sentido que busco entender a figura humana. Eu sou médico, eu me preocupo sempre com o ser humano”, explica o autor, que é pneumologista. “Mas é sempre bom ter em mente que não se pode deixar de lado as contradições do artista, o que é sempre um risco quando se escreve a respeito de um tema pelo qual se é apaixonado.”


Confira acima um comentário de Márco Aurélio Scarpinella Bueno sobre o livro Sons por detrás da cortina

Ao longo da pesquisa, Scarpinella Bueno se deparou com alguns autores e obras que chamaram particularmente a sua atenção. “Há o caso do Ligeti, que não precisa ser descoberto, claro, mas que tem obras nunca apresentadas, que vale a pena conhecer. O mesmo acontece com Lutoslawski ou Kurtág. E há nomes menos conhecidos. Fiquei fascinando com a ópera C’est la guerre, de Emil Petrovic, que narra a história de um casal que esconde um fugitivo na Hungria ocupada, por exemplo. E foi interessante ter contato com a obra de um autor como Peter Eötvös, de quem eu conhecia o trabalho como regente apenas.”

Scarpinella Bueno vai apresentar um pouco das obras desses e outros autores na sua palestra no Encontro Clássicos. Mas já trabalha no seu próximo livro, dedicado ao compositor alemão Paul Hindemith. “É também um autor que viveu em uma época complicada, com qual se relacionou como um Darth Vader, com um lado bom e outro mais complicado”, brinca.


[Leia também]
Textos de Marco Aurélio Scarpinella Bueno para o Site CONCERTO

[Confira na Loja CLÁSSICOS]
Schnittke: música para todos os tempos
Círculos de influência: a música na União Soviética
Sons por detrás da cortina: música no Leste Europeu durante a Guerra Fria

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