O Cavaleiro Gluck no Theatro São Pedro

por Jorge Coli 03/06/2014

Bela ideia foi a de programar Ifigênia em Táuris, que Gluck compôs para o público francês, no Theatro São Pedro.

A importância de Gluck para a história da cultura – e não apenas para a história da música – é imensa. Não há exagero em dizer que a reforma neoclássica das artes, feita dentro do espírito Iluminista, teve com ele sua primeira proclamação militante: foi o manifesto de sua ópera Alceste (1767).

Ele expunha ali os princípios de simplicidade, de natural, meios destinados a reconquistar força expressiva e dramática – os mesmos que presidiram a regeneração da pintura que Jacques Louis David impôs em 1784 com O juramento dos Horácios. E, da mesma maneira que David eliminou a pintura galante e ornamentada do Antigo Regime, Gluck condenou a sofisticação virtuosística da ópera que o precedia.

Sua marca na história da música foi imensa: Beethoven, Berlioz, Wagner, entre outros, têm nele sua mais antiga raiz. E.T.A. Hoffmann o celebrou em uma novela fantástica, a admirável O cavaleiro Gluck. Lembrança do ano 1809.


Christoph Willibald von Gluck em quadro de Joseph Siffred Duplessis, de 1775

Mas Gluck não foi apenas um marco histórico. Ele foi também o primeiro autor moderno de óperas, no sentido de que suas obras nunca saíram do repertório. Tudo o que foi composto antes dele, de Monteverdi a Händel e Rameau, desapareceu dos teatros, e só recentemente, graças a um esforço de retorno e de ressurreição é que essas obras são redescobertas e encenadas.

Mas Orfeu, Alceste, Armida, as duas Ifigênias (em Tauris e em Áulide), de Gluck, foram sempre apresentadas com regularidade até nossos dias. Nunca saíram de cartaz. Quero dizer: suas óperas magníficas, que ressuscitaram em nova expressão as tragédias da antiguidade, sempre falaram ao público como música viva.

Orfeu é a mais frequente nos palcos; as outras são menos representadas. Assim, foi uma alegria assistir Ifigênia em Táuris no Theatro São Pedro.

Com alguns apesares.

Musicalmente, foi uma bela apresentação. Orquestra e coro em grande forma, regência enérgica e vibrante de Alessandro Sangiorgi. Lício Bruno conferiu ao rei Thoas uma força impressionante. Pílades e Orestes, que encarnam a força da amizade, foram defendidos com bravura por Flavio Leite e o argentino Luciano Garay.


Flavio Leite e Luciano Garay como Pílades e Orestes [foto: Décio Figueiredo/divulgação]

A também argentina Mónica Ferracani emprestou sua bela voz, e sua grande musicalidade à protagonista (Ouça Mónica Ferracani cantando Un bel di vedremo, de Madama Butterfly).

É verdade que sua pronúncia incompreensível impedia de identificar o idioma em que estava cantando, que tanto podia ser o francês do original, como o servo-croata, o turcomano, ou uma língua qualquer de sua invenção. Acrescente-se que, embora muito sensível, faltava lhe o temperamento da atriz trágica para esse papel poderoso.

Seu acanhamento certamente deve se ter agravado por causa da montagem. Gluck escreveu a mais elevada música, mais nobre, que tece a alma de personagens também nobres e elevados. Isso pressupõe a grandeza do gesto, as belas atitudes, as posturas soberbas, a dignidade altiva.

Ao invés, o que houve foi uma concepção pífia, parecendo quase amadorística, pobrezinha, tudo muito mirrado, sem paixão nem exaltação, um clima assim de teatrinho em colégio de freira. A montagem do São Pedro, de outro argentino, Gustavo Tambascio, certamente em crise de inspiração, parece ter sido inspirada da concepção que Pierre Audi realizou para a Ópera Nacional Holandesa (DNO), em Amsterdam, em 2011 (veja aqui a integral da versão holandesa). Uma imitação pálida ainda mais sumária, mais árida e mais anêmica do que o modelo, que já não era muito feliz.

Mas não importa. Estava lá a música sublime do Cavaleiro Gluck, belamente interpretada. Já é muito.

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