A ópera em São Paulo, entre dois teatros

por João Luiz Sampaio 30/10/2014

A chegada de Luiz Fernando Malheiro ao Theatro São Pedro, em meados deste ano, marcou a volta a São Paulo de um maestro que, na última década, ajudou a fazer do Festival Amazonas de Ópera um celeiro importante de talentos e produções, a partir da diversidade de repertório, descentralizando o foco da atividade operística no país.

Restava, no entanto, uma dúvida: qual seria a orientação artística do São Pedro sob sua direção? A resposta veio na forma da temporada anunciada esta semana para 2015. Sob Malheiro, o teatro aposta em títulos importantes, mas pouco conhecidos, com espaço reservado a óperas brasileiras (encomendas já estão sendo discutidas para os próximos anos). Mais do que isso: o São Pedro tenta se definir como o espaço por excelência do cantor brasileiro – dos 105 artistas convidados para a temporada, em suas múltiplas séries, 99 são pratas da casa.

Não é preciso ir longe para enxergar nesse perfil uma resposta – ou, ao menos, um diálogo – ao Theatro Municipal, seja por conta da opção pelos títulos do grande repertório, seja pela combinação, nos elencos, de cantores brasileiros com nomes estelares do canto lírico internacional. Mas a comparação me parece menos importante do que o reconhecimento de que São Paulo passa a ter dois teatros de ópera produzindo sistematicamente, com propostas artísticas próprias e distintas.

Fachadas do Theatro Municipal (esq.) e do Theatro São Pedro [divulgação / Sylvia Masini TMSP]

No São Pedro, teremos L’amore dei tre re, de Montemezzi; Falstaff, de Verdi; Bodas no monastério, de Prokofiev; O homem dos crocodilos, de Arrigo Barnabé, em conjunto com Édipo Rei, de Stravinsky; Poranduba, de Villani-Côrtes; e Os pescadores de pérolas, de Bizet (em concerto). No Municipal, Otello, de Verdi; Ainadamar, de Osvaldo Golijov, em dobradinha com Um homem só, de Camargo Guarnieri; Eugene Onegin, de Tchaikovsky; Thaïs, de Massenet; Manon Lescaut, de Puccini; Lohengrin, de Wagner; e Così fan tutte, de Mozart.

Ao todo, enfim, os dois teatros vão produzir treze espetáculos. No São Pedro, somam-se às produções concertos sinfônicos, recitais de canções, vesperais e cortinas líricas, além de uma série dedicada à música de câmara brasileira. No Municipal, da mesma forma, além das óperas, haverá uma temporada de concertos e fala-se na criação de novas séries para a Praça das Artes (apenas o programa de assinaturas, que se refere somente às óperas, foi anunciado até agora).

Vale lembrar, no entanto, que além dos espetáculos, ambos os teatros agora têm suas academias de ópera (a do São Pedro, é preciso registrar, foi criada na gestão anterior, do maestro Emiliano Patarra). Ou seja, ambos assumem a necessidade de atuar não apenas na difusão mas também na formação, o que no Municipal se articula com a criação de uma diretoria específica para a área, assumida no primeiro semestre pelo compositor Leonardo Martinelli, e que tem como eixo a Escola Municipal de Música. Essa dupla atuação é uma reivindicação antiga – e que agora começa a se concretizar em dois projetos que, ainda no começo, têm tudo para se desenvolver de agora em diante.

A experiência de anos recentes ensina a tratar arroubos otimistas com cautela. Treze espetáculos, afinal, é ainda um número pequeno para uma cidade como São Paulo. E, em ambos os lados, há questões. No São Pedro, a quantidade vai se traduzir necessariamente em qualidade? A ver, afinal o número de apresentações quase triplicou, enquanto o orçamento teve um aumento de cerca de 30%. O Municipal, por sua vez, vai conseguir instituir de fato uma programação de repertório, ampliando o número de títulos e promovendo remontagens de seu acervo? Fará isso resolvendo enfim toda a problemática administrativa, herdada, é verdade, de antigas gestões? Não está claro.

Mas, com as bases e propostas artísticas lançadas, os dois projetos, em suas múltiplas ramificações, carregam ao menos a promessa de um período estimulante de experiências.

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