A sala de volta

por João Luiz Sampaio 01/12/2014

A senhora entrou correndo, assim que as portas se abriram. Hesitou por um instante, mas logo encontrou o que procurava: a fileira M, e a poltrona preferida, na qual assistiu a tantos concertos, recitais e apresentações. “Pronto, achei meu lugar”, disse, feliz, em voz alta, para si mesma. Logo depois, olhou em volta. “Parece que ficou menor.” E alguém então a corrigiu: “Não, são menos cadeiras, só isso.”

A cena, na tarde da última sexta-feira (28/11), exemplifica bem a relação que os amantes da música têm com a Sala Cecília Meireles. Fechada há 4 anos para reforma, ela foi reaberta ao público pouco depois das 14h30, sediando as primeiras provas eliminatórias do 4º Concurso Internacional BNDES de Piano do Rio de Janeiro.


O painel no fundo do palco, uma das marcas registradas do espaço, foi mantido [fotos: Revista CONCERTO]

Antes do começo, ou mesmo no intervalo, as conversas eram parecidas: todos temos memórias ligadas à sala, descobertas musicais, encontros, conversas, revelações, apresentações memoráveis. Por conta disso, voltar a ela – ou tê-la de volta – dá uma sensação especial. Até porque sua programação fez falta ao cenário musical carioca, que nos últimos, em seus principais palcos e conjuntos, sofreu diversos abalos.

A sala, no entanto, recebeu o público de modo diferente. Uma enorme janela foi criada na fachada, iluminando a decoração moderna que agora conta com um mezanino amplo e uma mistura interessante de madeira e vidro e, ao mesmo tempo, permitindo que, do lado de dentro, possa se observar a paisagem do centro do Rio. Sobre o espaço, agora também paira um enorme lustre assinado pelos designers Francisco Gomez Paz e Paolo Rizzatto, da Argentina e da Itália.


Novo lustre, assinado pelos designers Francisco Gomez Paz e Paolo Rizzatto; abaixo, a fachada reformada

Dentro da sala, o painel do fundo do palco, uma das marcas registradas do espaço, foi mantido e restaurado. Há, de fato, menos cadeiras – 680, contra 830 do passado, redução feita para que se pudesse aumentar a área de circulação, atendendo exigências atuais de segurança. Nas laterais, a mudança foi maior: o teatro agora está revestido de placas de madeira (carvalho branco), trabalhadas pelo artista Ângelo Venosa.

E a acústica? A sala sempre foi conhecida pela excelência neste quesito. E houve quem, no intervalo das provas do concurso, achasse que o som está reverberando demais. Talvez. Mas é preciso esperar um pouco antes de fazer julgamentos definitivos. E contar, para isso, com a programação que vem sendo montada pelo diretor João Guilherme Ripper, que inclui música de câmara, recitais e também a apresentação de orquestras sinfônicas nas próximas semanas.

A reabertura oficial da Sala acontece apenas no dia 11 de dezembro, com um recital de canções inspiradas em poemas de Cecília Meireles e a participação da mezzo-soprano Luisa Francesconi, do barítono Homero Velho e da pianista Priscila Bonfim – a
direção será de André Heller-Lopes. Mas, no final, coube ao pianista paulista Richard Kogima, de 24 anos, candidato que abriu as provas do Concurso BNDES, a honra de ser o primeiro artista a se apresentar ao público na nova sala. Ele tocou, Bach, Beethoven e Rachmaninov. Acabou não passando para a fase semifinal. Mas poderá ostentar no currículo um marco de fazer inveja a qualquer colega.

P.S.: Por falar em memórias musicais, eu saí da sala na sexta me lembrando de um Concerto nº 3 de Beethoven que me revelou, há quase uma década, a genialidade da pianista Maria João Pires; das tardes de maratona da Folle Journée carioca, bravamente realizada por Helena Floresta e Teresa Pinheiro; dos recitais de Antonio Meneses com Menahem Pressler; do fascínio provocado pela música para o palco de Zemlinsky; do primeiro contato com a Filarmônica de Minas Gerais, já dando provas de qualidade em seu ano de criação, com Fabio Mechetti e Arnaldo Cohen. Mas, sem passadismos: a lembrança de grandes momentos musicais dura pouco e logo é substituída pela esperança de que novos estejam por vir.

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