10 anos de Filarmônica de Minas Gerais: muito a comemorar

por Nelson Rubens Kunze 27/02/2018

A Orquestra Filarmônica de Minas Gerais está comemorando 10 anos de existência. Não é pouco em nosso país, em que projetos de excelência são raríssimos e, quando iniciados, acabam por ter vida efêmera. A orquestra nasceu da intenção do governo mineiro de criar uma orquestra moderna e de qualidade. Criou-se uma nova estrutura, uma associação sem fins lucrativos hoje denominada Instituto Cultural Filarmônica, estabeleceu-se um termo de parceria público privada e desenvolveu-se um projeto sinfônico que hoje está entre os melhores do país.

Há 10 anos, em fevereiro de 2008, viajei a Belo Horizonte para assistir à estreia desta nova orquestra brasileira. Eu estava empolgado! Pois, além de terem escolhido um ótimo maestro brasileiro para a direção artística e regência titular, Fabio Mechetti, o projeto se baseava em um modelo de gestão – o de um contrato com uma organização da sociedade civil – que já tinha gerado em São Paulo o milagre da Osesp e da Sala São Paulo.

Dez anos depois, os frutos daquela ideia excedem em muito às mais otimistas previsões que fazíamos em 2008. A Filarmônica rivaliza para ser a melhor do país, possui uma espetacular sede, a Sala Minas Gerais, e transformou-se em um potente polo irradiador de cultura clássica: em centenas de concertos, inclusive no interior do estado de Minas e em capitais do Brasil e do exterior, a orquestra foi vista e ouvida por mais de 1 milhão de pessoas. E não são quaisquer concertos: desde sua fundação, a orquestra organiza séries de assinaturas com destacados artistas nacionais e internacionais, em um compromisso de seriedade e profissionalismo raro em equipamentos públicos. Além dos concertos, a Filarmônica mantém projetos educacionais, de formação de plateias, o Festival Tinta Fresca de incentivo à composição e o Laboratório de Regência. À exceção da Osesp, que outra orquestra sinfônica brasileira ostenta um histórico dessa envergadura? Mantida pelo estado de Minas Gerais, a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais é mais um exemplo de como as parcerias com organizações da sociedade civil geram os melhores resultados da equação custo versus benefícios para os investimentos públicos na área a cultura.

Voltei a Belo Horizonte no dia 17 de fevereiro passado para assistir à comemoração de aniversário da Filarmônica de Minas Gerais. A excelência artística mais uma vez deu o tom do espetáculo, que teve a Nona sinfonia de Beethoven, com os equilibrados solistas Gabriella Pace, Denise de Freitas, Matheus Pompeu e Licio Bruno, ao lado da Suíte Vila Ricade Camargo Guarnieri, sob regência precisa do maestro Fabio Mechetti. Foi muito especial a interpretação da obra de Guarnieri, por seu ineditismo e pelo belo virtuosismo das madeiras da orquestra. E todos nós gostamos da Nona, dessa sinfonia monumental, com sua mensagem de paz e fraternidade (é verdade que ao meu lado, uma senhora, emocionada, acompanhava cantarolando Freudeschöner GötterfunkenTochter aus Elysium atrapalhando “um pouco” a minha audição...).

Significativo também foi ver o governador do estado de Minas Gerais, Fernando Pimentel, na plateia da Sala Minas Gerais. Quanto a isso vale observar: a Filarmônica de Minas Gerais é possivelmente a primeira orquestra brasileira desde Pedro Álvares Cabral que não trocou de maestro nem de diretores quando a oposição venceu o governo, como aconteceu nas últimas eleições. Mais uma grande virtude do modelo de Organizações Sociais, que, preservando a missão das instituições, consegue proteger orquestras sinfônicas, museus, teatros e demais órgãos culturais públicos dos interesses político-partidários mais imediatos.

Parabéns ao estado e ao governo de Minas Gerais, que há dez anos investem em um equipamento cultural público, aberto e democrático, que já é um paradigma em nosso país. Parabéns aos ótimos músicos, ao maestro Fabio Mechetti e ao Instituto Cultural Filarmônica. Vida longa à Orquestra Filarmônica de Minas Gerais!