Auf Wiedersehen, Sir Rattle

por Leonardo Martinelli 22/06/2018

Em novembro de 1987, um jovem inglês – à época recém-adentrado na casa dos 30 anos – realizou o sonho de qualquer regente: conduzir um concerto junto à Filarmônica de Berlim. A orquestra era ainda dirigida pelo mítico maestro austríaco Herbert von Karajan, responsável por posicionar o grupo como uma das principais sinfônicas do planeta e que regularmente cedia seu pódio tanto a colegas reputados como a jovens promessas.

Naquela época, Simon Rattle, nascido em 1955, já havia chamado a atenção do mundo clássico por seu trabalho junto à Orquestra Sinfônica da Cidade de Birmingham, no Reino Unido. Munido de muita energia, ousadia e habilidades políticas, esse jovem regente – antes talentoso percussionista que contava também com formação em piano e violino – colocou Birmingham no mapa da música ao elevar a qualidade técnica e artística do grupo, promovendo práticas mais modernas e despojadas que incluíram não apenas a música contemporânea, mas também uma série de atividades que visavam a ampliar o alcance da música de concerto.

Sir Simon Rattle [Divulgação / Monika Rittershaus]
Sir Simon Rattle [Divulgação / Monika Rittershaus]

Em 2002, quando os músicos da Filarmônica de Berlim procuravam um novo regente para suceder o italiano Claudio Abbado, as ideias mais progressistas de Rattle foram fator decisivo em sua ascensão ao Olimpo sinfônico, uma vez que parte significativa da orquestra tinha optado pelo argentino Daniel Barenboin – também excelente músico, mas então identificado com uma postura mais tradicional. Não sem controvérsia, a modernidade venceu, dando início à “era Rattle” em Berlim.

Apesar de a música contemporânea de fato ter se tornado mais presente na programação da orquestra – além de programar “clássicos” do século XX, sob a direção de Rattle foi instaurada uma sólida política de encomendas –, não é justo reduzir a isso o legado do maestro inglês. Vale a pena lembrar que foi justamente na última década que o mundo vivenciou a revolução da internet de alta velocidade, e a instituição não perdeu tempo e saiu na frente de suas concorrentes com seu Digital Concert Hall, hoje modelo de sucesso para transmissões ao vivo e difusão de seu riquíssimo arquivo em vídeo. Em termos de repertório, Rattle não se esquivou de se aprofundar no que poderíamos chamar de especialidade da orquestra, ou seja, o grande repertório sinfônico austro-alemão situado entre a segunda metade do século XIX e a primeira do XX. Não por acaso, foi justamente esse repertório que marcou seus concertos de despedida ao longo de maio e junho, pouco antes das férias de verão europeia e antes de o novo regente, o russo Kirill Petrenko, assumir o comando a partir de agosto.

A Revista CONCERTO teve oportunidade de conferir ao vivo, na sala de concertos da orquestra (a famosa “Philharmonie” de Berlim), uma dessas ocasiões, quando Rattle subiu ao pódio para uma apresentação que simboliza bem sua atuação ao longo desses anos. Na noite de sábado 26 de maio passado, o concerto foi iniciado com a estreia mundial de mais uma encomenda de música contemporânea, Three Pieces for Orchestra, do compositor dinamarquês Hans Abrahamsen (1952). Cheia de ritmos articulados, harmonias e melodias diatonicamente delineadas, a peça está longe de estilisticamente soar como “moderna”, mas ainda assim suscita interesse ao explorar de maneira muito breve (ela não dura mais que 7 minutos) cores orquestrais de forma bem contrastante.

O contraste musical foi acentuado pela peça principal do programa, a gigantesca Sinfonia nº 9, de Anton Bruckner (1824-96), essa com mais de 80 minutos de duração se considerarmos seu quarto e inconcluso movimento. Para além de toda expectativa de outra vez se ouvir essa sinfonia pela batuta de Rattle – 16 anos atrás ele a regeu logo em suas primeiras semanas à frente da orquestra –, na prática teve-se a “estreia” de uma peça de mais de cem anos existência.

Já bastante debilitado pela idade e pelo estado de saúde, em seu último ano de vida Brucker se dedicou com afinco em sua elaboração. Seu processo de composição envolvia realizar uma partitura para dois pianos, e somente após finalizado esse esboço ele passar a colorir acordes e melodias com diferentes pincéis e tintas que a paleta orquestral oferece, conferindo, então, a forma sinfônica. Do quarto movimento, o compositor conseguiu escrever apenas a partitura para dois pianos, alguns compassos ficaram em branco e, pior, algumas páginas se perderam. O movimento apresentado foi resultado de um enorme esforço musicológico que reconstruiu, resgatou e, aqui e acolá, “inventou” passagens, sempre em acordo com as ideias e a estilística de Bruckner.

O resultado não poderia ter sido mais glorioso: orquestra e regente se deliciando com entrega com o “novo velho conhecido”, ao mesmo tempo que a iminente saída de Rattle impregnava a atmosfera da sala com um benquisto saudosismo, daqueles raros e que só ocorrem ao fim de ciclos de vida, arte e trabalho realizados com esmero e de forma plena. Ao término do concerto, um show à parte: após as tradicionais salvas de palmas, bem como o famoso vaivém do regente e os cumprimentos aos solistas, orquestra e regente deixaram o palco. Até aí, nada demais, não fosse o público se recusar a deixar a sala e continuar a aplaudir, de forma insistente, o palco vazio por vários minutos. Sir Simon Rattle teve que voltar, desta vez sozinho, para receber o que lhe era de direito: uma ovação só para ele. Vielen Dank, maestro!

[Assista a este concerto na íntegra pelo Digital Conerto Hall. Clique aqui e utilize o voucher exclusivo da CONCERTO para obter o desconto. Assista também aos próximos concertos comemorativos, ao vivo.]