Com Richard Strauss, ópera segue bem em 2018 no Municipal de São Paulo

por Nelson Rubens Kunze 19/06/2018

Como é inspirada a ópera O cavaleiro da rosa, de Richard Strauss! O título, que estreou na última sexta-feira no Theatro Municipal de São Paulo (primeira montagem da Temporada 2018 produzida pelo próprio teatro, já que La Traviata veio de Belo Horizonte), não era apresentado em São Paulo desde a década de 1950 – a Osesp promoveu, em 2009, ótimas apresentações, mas em forma de concerto.

A ópera estreou em 1911 em Dresden, mesmo ano da inauguração do nosso Municipal de São Paulo. Após as audácias cromáticas e dissonantes de Salomé e, especialmente, de ElektraO cavaleiro da rosa significou uma guinada na criação de Strauss, que então, conforme Lauro Machado Coelho, “volta-se para a tradição vienense e mozartiana, revitalizada por contribuições da linguagem moderna, inaugurando um estilo neobarroco que lhe permitiu conciliar, com rara felicidade, ousadia e tradição”.

Cena da ópera O cavaleiro da rosa [Divulgação]
Cena da ópera O cavaleiro da rosa [Divulgação]

Dirigida musicalmente pelo maestro Roberto Minczuk e cenicamente pelo argentino Pablo Maritano, a montagem alcançou um resultado geral muito bom. Cenários bem estruturados – com palco giratório, grandes espelhos laterais, amplas cortinas e utilização do proscênio (especialmente feliz foi o cenário do primeiro ato, que proporcionou uma ótima dinâmica para as mudanças da cena do aposento para a antessala) – e uma boa movimentação dos atores conferiram fluidez à narrativa. Não por acaso, a produção contou com um competente time de especialistas: Italo Grassi é o responsável pela cenografia, os figurinos são de Fábio Namatame e a iluminação de Caetano Vilela. A orquestra começou irregular, mas ganhou ritmo ao longo do espetáculo. Não é uma partitura fácil; amplas estruturas orquestrais se alternam com passagens de delicadeza camerística, em um fluxo sonoro de grande virtuosismo e teatralidade. É, Strauss...

Entre os solistas, o grande destaque da noite foi a mezzo soprano Luisa Francesconi, que fez o papel do jovem Octavian. Com desenvoltura cênica, voz privilegiada e interpretação cuidada, Francesconi conduziu com maestria o exigente papel. Estiveram muito bem também a Marechala, feita pela soprano argentina Carla Filipcic Holm, e a Sophie, cantada pela soprano russa Elena Gorshunova. O dueto do segundo ato (Octavian e Sophie) e o final (Octavian, Sophie e Marechala) foram pontos culminantes da apresentação. Infelizmente, o barão Ochs von Lerchenau ficou aquém de seus colegas. Apesar de adequada constituição física e de qualidades na ação teatral, o baixo alemão Dirk Aleschus, de voz contida, não estava em uma noite muito favorável.

O elenco contou também com boas atuações do barítono Rafael Thomas (Herr Faninal) do tenor Paulo Queiroz (Valzacchi), da contralto Magda Paino (Annina) e do tenor Fernando Portari (cantor). Participou ainda o Coral Paulistano.

Após a ótima Traviata de maio, este O cavaleiro da rosa demonstra o bom nível artístico, até aqui, da temporada do Theatro Municipal de São Paulo. Dadas as dificuldades que o país – e especialmente a cultura – atravessa, poderemos comemorar se esse mesmo patamar de qualidade se mantiver nas próximas encenações do ano – remontagem de Pelléas et Mélisande em outubro e Turandot em novembro.

p.s.: Apesar de reconhecer pontos positivos no tal do #BisNoMunicipal – aquele momento em que é permitido à plateia filmar e fotografar o espetáculo para postar em redes sociais –, não dá certo fazer isso no meio da ópera (nem mesmo em uma ópera cômica)...