Cristian, Jamil e OER empolgam o Municipal lotado

Na música clássica, como na vida, as melhores ideias não são necessariamente as mais mirabolantes. Enquanto a direção arrogante de orquestras endinheiradas faz o público fugir de suas séries “brilhantes” como o diabo da cruz, Jamil Maluf, há décadas, enche teatros com a Orquestra Experimental de Repertório com uma fórmula aparentemente simples: programas bem escolhidos, tocados por uma orquestra realmente dedicada, comandada por um regente 100% envolvido e comprometido com o trabalho.

Claro que ajuda bastante ter o bom senso de convidar um solista com o carisma e talento exuberante de Cristian Budu. Assim, no meio do feriado prolongado, no domingo, dia 29 de abril, ao meio-dia, o Teatro Municipal de São Paulo estava absolutamente lotado para ouvir um repertório de música russa do século XX.

Cristian Budu [Foto: Céline Michel / Divulgação]
Cristian Budu [Foto: Céline Michel / Divulgação]

Maluf abriu o programa com a Nona Sinfonia, aquela que talvez seja, dentre as obras do gênero de Dmítri Chostakóvitch (1906-1975), a mais adequada a ser tocada por uma orquestra de jovens como a OER. Não, obviamente, por causa da questão técnica, mas sim do caráter espevitado e jovial.

Como se sabe, a Nona é de 1945, ano em que a URSS venceu a Grande Guerra Patriótica (como os russos chamam a II Guerra Mundial). Tendo em vista não apenas a solenidade da ocasião, como a monumentalidade de suas sinfonias anteriores, a Sétima (apelidada de Leningrado) e a Oitava, e a sombra que a Nona de Beethoven projeta sobre todas as 'Nonas' de compositores posteriores, esperava-se uma obra gigantesca e catártica, retratando o conflito recém-encerrado e o triunfo soviético de forma bombástica.

Porém, em vez de um mastodonte pós-mahleriano, Chostakóvitch driblou as expectativas oficiais, com uma obra de ironia e textura haydniana, em que ouvem-se mais polcas do que alusões bélicas, retomando, de forma surpreendente e inusitada, a mordacidade de sua primeira sinfonia. A OER não teve medo de se expor em meio a uma escrita tão transparente; os diversos solos da sinfonia acabaram servindo como belo veículo para a excelência de seus vários naipes, tendo sido tocados com verve e brio, e Jamil soube transmitir o sabor da peça e manter a coesão do conjunto.

Do neoclassicismo serelepe de Chostakóvitch, pulamos, sem intervalo, para o neorromantismo sentido de Serguei Rachmaninov (1873-1973), com o emblemático Concerto n. 2 para piano e orquestra. Ouvi Cristian Budu tocar o terceiro movimento dessa obra na final do concurso Prelúdio, da TV Cultura, em 2007 – quando ele foi o vencedor –, e nunca mais depois. Estava, dessa forma, curioso para verificar o quanto sua interpretação do concerto amadureceu ao longo dessa década – com a vitória no Concurso Clara Haskil (2013) no meio do caminho.

Como o próprio Rachmaninov já demonstrava em sua pioneira gravação da peça – dando uma lição que diversos intérpretes posteriores preferiram esquecer –, não é necessário enfiar sentimentalismo “extra” em uma obra já intrinsecamente sentimental. A  exemplo do que fizera em sua leitura do Concerto n. 1, de Tchaikóvski, Budu manteve-se fiel ao espírito da obra e do compositor, porém descartando excessos em prol de uma abordagem mais “objetiva” da partitura.

Soube, ainda, trazer para Rachmaninov uma característica sua ao tocar com orquestra – e que se evidencia especialmente em sua interpretação do concerto para piano de Schumann: a vontade de fazer música de câmara. Vemos, assim, o solista buscando contato visual com a orquestra o tempo todo, replicando seus fraseados, dialogando com cada um dos solos e fundindo sua sonoridade ao conjunto, buscando não o destaque solitário, mas a construção de uma sonoridade comum. O resultado foi uma leitura aprofundada e amadurecida, um Rachmaninov que parece antes egresso dos refinamentos da Era de Prata da arte russa da virada do século XIX para o XX do que do kitsch hollywoodiano em que alguns se esforçam por convertê-lo.

Depois de falar russo sem nenhum sotaque, Cristian rematou a apresentação com um de seus bis favoritos: a Valsa de Esquina n. 5, de Francisco Mignone, aliando o espírito brejeiro do compositor brasileiro ao apuro e refinamento das mazurcas de Chopin. Fica a torcida para que ele um dia se anime a gravar as Valsas de Esquina, e deixe cristalizada sua leitura tão apurada e matizada da música de Mignone.