Dois elencos, duas Traviatas

por Jorge Coli 28/05/2018

Pude assistir aos dois elencos de La Traviata no Municipal de São Paulo, um no dia 14, outro no dia 23. Foi ótimo estar presente às duas apresentações, porque o espetáculo provocou impressões bem distintas em mim.

Em ambas, o público aplaudiu assim que a cortina foi aberta, como se saudasse, aliviado, uma Traviata que se parecia com Traviata e não com uma usina nuclear ou o com o lixão de Caieiras. Muito justo.

O cenário era severo, os figurinos suntuosos. Jorge Takla é um diretor de cena para quem o libreto não é irrelevante ou insignificante: cada uma de suas indicações foi perfeitamente respeitada e, mesmo, sublinhada. Raras e boas qualidades pelos dias que correm.

Na récita do dia 14, porém, alguma coisa não satisfazia. Roberto Minczuk ofereceu um soberbo prelúdio; depois, os andamentos e as acentuações eram por vezes surpreendentes, sempre enérgicos, porém. Fernando Portari conduziu seu personagem até o fim, sem tropeços, como fino músico que é, um pouco overacting. Paulo Szot, poderoso no papel de Germont, marcou o espetáculo com uma interpretação notável. Nadine Koutcher, cantora bielorrussa, foi a protagonista, espinha dorsal da partitura. Vencedora de concursos internacionais, ela trouxe uma voz segura para o personagem, no entanto com pouca carnalidade e poucas cores, empalidecendo ao subir para os agudos, que ela catapultava com força. Interpretação segura, mas não se pode dizer que fosse sutil ou comovente. Nadine já interpretou também Olympia, a boneca mecânica em Os contos de Hoffmann, na Ópera de Paris; talvez seja um papel ideal para ela. Na saída do teatro, a sensação era: montagem bonita, decorativa, lindo balé, barítono soberbo, tudo ok, e buona notte.

Cena da ópera La Traviata [Divulgação / Paulo Lacerda]
Cena da ópera La Traviata [Divulgação / Paulo Lacerda]

Com o outro elenco, o clima mudou. Permanecia o Alfredo de Portari, cabotinando um pouco menos, mais à vontade, fraseando com mais cuidado e, talvez, voz mais em forma. Leonardo Neiva, sem levar a esquecer Paulo Szot, conduziu seu Germont com bela dignidade musical. A grande diferença, porém, veio com o novo soprano, a argentina Jaquelina Livieri.

Livieri não tem a mesma extensão vocal de Koutcher. Seus agudos foram obtidos com algum esforço e ela escamoteou o mi bemol de tradição – não de partitura – que muitas cantoras, como Koutcher, introduzem no final do “Sempre libera”. Não é um crime: grandes intérpretes, Ponselle, Tebaldi, Freni, Los Angeles, Montserrat Caballé, Netrebko, entre tantas, também omitiam, ou omitem, essa nota não escrita por Verdi.

Mas desde o início, desde seu “Flora, amici, la notte che resta”, meio melancólico, tornou-se evidente que o personagem estava ali. A voz diáfana, de cores outonais, tinha um vibrato delicado, de pássaro. Sua musicalidade tingia com tantas nuances as frases, o legato sensível, criando uma vulnerabilidade que correspondeu perfeitamente à jovem enferma. Maravilhosa atriz, uma vez passados os píncaros do primeiro ato, entregou-se plenamente aos sofrimentos de Violetta: ao cantar “Dite alla giovine”, prostrada sobre a mesa em que iria escrever a carta fatal, nenhum coração, de pedra que fosse, poderia resistir. Então, a montagem, os magníficos figurinos, a vulgaridade de Alfredo, a severidade de Germont faziam sentido, porque tudo girava em volta de Violetta, sem tocá-la, condenando-a ao martírio de uma solidão absoluta. A verdade de seu amor a faz maior do que tudo e do que todos, dando-lhe uma estatura trágica.

No último ato, Takla teve a boa ideia de fazer um grupo de bailarinos acompanhar a morte de Violetta, como poéticos fantasmas. Eles recolheram seu corpo, elevando-o; com os braços abertos, ela tornou-se uma vítima crucificada na luz.

Resultado: montagem fazendo pleno sentido, para uma La Traviata que comprova dois pontos importantes. Ópera não é apenas voz, e Violetta vale muito mais que um mi bemol. E também uma terceira: quando houver dois elencos, assista aos dois.

Roberto Minczuk procedeu aos cortes de tradição na partitura (exceto o allegro do tenor no primeiro quadro do segundo ato e as exclamações no momento em que Violetta morre), o que me parece uma escolha judiciosa, embora seja cada vez mais rara hoje em dia. Com esses cortes, La Traviata adquire uma concisão dramática poderosa, cuja força a transforma em perfeita obra-prima. Talvez seja menos apreciável a separação do segundo ato em duas partes por um intervalo, juntando-as ao primeiro e ao terceiro, e oferecendo dois blocos seguidos, ao invés de três. Dois entreatos, um pouco mais curtos talvez, não espichariam tanto o espetáculo, e permitiriam que cada ato conservasse sua unidade.