Festival de Ópera do Theatro da Paz faz bom “Don Giovanni”

por Nelson Rubens Kunze 19/09/2017

Termina mal o Don Giovanni de Mozart, destaque do XVI Festival de Opera do Theatro da Paz, em Belém do Pará. Termina mal para o personagem, bem entendido, tragado pelas chamas para pagar todos seus pecados. É que a produção optou por suprimir o final “feliz” meio moralizante da versão original da estreia em Praga, em 1787, como é muito comum desde pelo menos meados do século passado (há musicólogos que sustentam que a versão apresentada em Viena, em 1788, já teria sido sem esta cena final). Seja como for, essa solução em Belém fez todo sentido, pois no geral, a concepção realça o drama perverso da “busca de liberdade” do personagem, em detrimento de uma leitura mais cômica da obra.

Don Giovanni, de 1787, é a segunda ópera da famosa trilogia criada por Mozart com o libretista Lorenzo Da Ponte, entre As bodas de Figaro (1786) e Così fan tutti (1790). Inspirada no mito de Don Juan, que trata do insaciável sedutor e conquistador de mulheres, Don Giovanni é uma das maiores criações de Mozart, e assim, de toda a história da música ocidental.

É bom o resultado geral da montagem, que tem direção cênica de Mauro Wrona e a participação de alguns de nossos principais profissionais líricos: Nicolás Boni (cenografia), Caetano Vilela (iluminação) e Fábio Namatame (figurinos). Com soluções simples e funcionais, os cenários oferecem suporte adequado para a narração. Um dos principais recursos utilizados são dois grandes módulos retangulares, que são deslocados sobre o palco, formando os diferentes espaços cênicos. A ambientação é escura, às vezes soturna, e as paredes trazem desenhos que expressam dor e medo, em reproduções de quadros de Francisco Goya. É muito bonita e gera grande impacto, a cena da festa de casamento de Zerlina e Masetto, no Ato I, em que uma grande tela emoldurada, retratando um quadro com uma cena campestre, desce sobre o palco dominando toda a cena. Outra passagem de destaque, que apresenta uma criativa e bem-sucedida solução dramatúrgica, é a cena final, que transforma a famosa cena do banquete em um manjar de lindas jovens mulheres, com seios à mostra em provocantes insinuações sexuais.

A ópera, de quase três horas de duração, impõe um grande desafio ao diretor cênico, que é o de integrar cenas dramáticas e cenas cômicas a um todo completo, em um discurso orgânico que vai desde o assassinato do comendador, logo no início, para culminar com o castigo do pecador na última cena. E, em que pese um início um pouco desencontrado, Mauro Wrona conseguiu um resultado muito convincente (que a história estava sendo bem contada também ficou evidente com a interação do público, com risos e aplausos).

Esteve muito bem a Orquestra Sinfônica do Theatro da Paz, regida pelo maestro Silvio Viegas. A famosa abertura soou com verve e dramaticidade, como convém. E o maestro soube conduzir o conjunto com todo o senso teatral necessário. Também foi correto o Coral Lírico do Festival, que teve preparação do maestro Vanildo Monteiro.

Don Giovanni exige um numeroso elenco, com vozes de diferentes registros e características. Talvez resida aí o ponto sensível da récita a que assisti (dia 15 de setembro). Embora, no geral, competentes e muito desenvoltos teatralmente – o barítono Homero Velho fez Don Giovanni, o baixo-barítono espanhol Silverio de la O interpretou o criado Leporello e a soprano Marina Considera fez Dona Anna –, os artistas têm características vocais, técnicas e estilísticas, muito distintas, o que dificultou uma conjunção sonora harmoniosa do elenco. É importante registrar, contudo, a ótima atuação dos jovens artistas, tanto dos que vieram de fora (Aníbal Mancini como Don Ottavio e Anderson Barbosa como o Comendador), quanto dos paraenses (destaque para a personalidade da Dona Elvira de Kézia Andrade, para a graça e talento natural de Dhuly Contente, que fez Zerlina, bem como para o Masseto de Idaías Souto).

No difícil momento brasileiro atual, com a descontinuidade ou comprometimento de diversas atividades na área da música clássica, é um prazer ver o governo do Pará investindo no festival de um dos mais lindos e importantes teatros de nosso país. Além deste Don Giovanni, Belém ainda teve a ópera A voz humana, de Poulenc, o Stabat Mater, de Pergolesi, concertos e palestras.

(Este Don Giovanni, com outra orquestra, solistas e regente, poderá ser visto em São Paulo nos dias 28 e 30 de outubro e 1º, 3 e 5 de novembro, em uma produção do Theatro São Pedro.)

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belém e assistiu à montagem de Don Giovanni a convite do XVI Festival de Ópera do Theatro da Paz.]