A goleada da Argentina (e nem precisaram do Messi)

por Nelson Rubens Kunze 08/12/2017

Tudo bem que a gente é melhor no futebol – óbvio, alguém duvida? –, mas, pelo menos para mim, veio com um gosto de vergonha a temporada que o Teatro Colón de Buenos Aires acaba de lançar. Só que não foi aquela vergonha alheia que se costuma apregoar por aí. Foi vergonha nossa mesmo, bem nossa.

Claro que o culpado é o jornalista João Luiz Sampaio! Foi ele que colocou o post da temporada do Colón lá em sua página do Facebook, humilhando-nos ao escancarar a nossa pobreza. Foi ele que teve essa extrema indiscrição de mostrar essa monstruosidade de nossos vizinhos, pra todo mundo ver. Que um ou outro de nós, na calada da noite, ainda tivesse a ousadia de navegar sigilosamente pelo site do Colón, vá lá. Mas jogar assim na nossa cara as maravilhas líricas que acontecem na cidade portenha, à luz do dia, estourando todas as bolhas do Facebook?? Ah não, João, essa não!

Bom, agora que esse ato irrefletido, irresponsável e insano foi consumado, não nos resta outra alternativa a não ser aceitar a realidade dos fatos: em ópera, os argentinos dão de goleada!

Ainda bem que, pelo menos timidamente, o Brasil está lá representado. O tenor Attala Ayan canta Rodolfo na La Bohème e a ópera Piedade de João Guilherme Ripper será reapresentada na série Ópera de câmara. Entre os maestros encontrei Roberto Minczuk, Luiz Fernando Malheiro e o “nosso goiano” Neil Thomson. Salvo engano, acabou por aí.

Mas vejam o que é esse verdadeiro 7x1 da lírica Argentina contra o Brasil: nada mais nada menos que 8 óperas – do contemporâneo Peter Eötvös (Três irmãs, baseada em Tchekov) a Norma de Bellini, passando por La italiana en Argel (Rossini), Aida (Verdi), Tristão e Isolde (Wagner), Pelléas et Mèlisande (Debussy), La Bohème (Puccini) e As estações (Haydn). Na categoria Ópera de câmara, ao lado da obra de Ripper, O triunfo da honra, de Scarlatti, e Powder her face, de Thomas Adès. Na categoria Ballet, cinco produções: El corsário (Adam, Pugni, Delibes e Drigo), Coppelia (Leo Delibes), A viúva alegre (Lehár), Romeu e Julieta (Prokofiev) e O quebra-nozes (Tchaikovsky).

Os craques argentinos ainda têm séries denominadas Concertos (18 programas), Sinfônica-coral (6 programas), Grandes Intérpretes Internacionais (com Filarmônica de Viena e Gustavo Dudamel, Anna Netrebko, Bryn Terfel e Juan Diego Flórez), Contemporâneo, Colón para crianças, Experimentação, Intérpretes argentinos, Salão Dourado e a temporada do Mozarteum Argentino. Como se não bastasse, os hermanos ainda organizaram uma temporada da Ópera Estatal de Berlim com direção de Daniel Barenboim. Além da montagem do Tristão (“produção convidada”), a companhia alemã e seu diretor ainda farão concertos com a integral das sinfonias de Brahms. Isso é gol de bicicleta!

Humildemente, seria bom registrar, também – talvez pudéssemos aprender algo com isso –, que, na ópera, algumas das programações são remontagens e outras são realizadas em coproduções nacionais e internacionais. Todos os títulos são dirigidos por diferentes regentes e diretores cênicos convidados. E, claro, as temporadas de ópera e de balé são oferecidas em diversas séries de assinaturas.

Voltando à realidade brasileira, temos de reconhecer: no campo da ópera estamos jogando na segunda divisão. Temos bons jogadores e técnicos, sem dúvida, e algumas iniciativas pontuais heroicas e valiosas – Festival Amazonas de Ópera, Festival do Theatro da Paz e o Palácio das Artes em Belo Horizonte. Em nossos teatros municipais, contudo, ainda estamos devendo muito.

Pensando melhor, acho que João Luiz Sampaio fez bem em descobrir essa assombrosa temporada do Teatro Colón. Referenciar as nossas atividades – e reconhecer as nossas debilidades institucionais – talvez seja um bom começo para a renovação de nossos teatros de ópera.

p.s. Quanto aos argentinos, ainda bem que temos pelo menos a Osesp e a Sala São Paulo para dar olé...

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