Hvorostovsky e um “Rigoletto” excepcional

por Jorge Coli 26/02/2018

Já se repetiu muito que perda significou a morte de Dmitri Hvorostovsky, em novembro passado, para o mundo da ópera. Perda imensa, de fato.

Tive a chance, ou antes, a sorte grande, de estar presente ao concurso de canto de 1988, quando o grande barítono de nome impronunciável, então com 26 anos, levou o primeiro prêmio. Lembro-me de sua figura simpática, de sua boca enorme e de seu Verdi propriamente fabuloso. O triunfo que obteve não foi uma surpresa, bem ao contrário, tanto suas qualidades eram evidentes.

Pude vê-lo em cena depois, algumas vezes, como Oneguin, Yeletsky, ou Germont, sempre soberbo.

Hvorostovsky deixou um testamento: a gravação de Rigoletto (cd Delos) realisada em Kaunas, Lituânia, na primeira semana de julho de 2016. Já lutava contra a doença que o levaria, mas estava em plena força de seus meios.

Esse registro é excepcional por causa de sua presença no elenco, mas por outras razões também.

Creio que Hvorostovsky é o único barítono cuja voz pode se comparar à de Leonard Warren e sem nenhuma inferioridade. Ambos foram dotados de um timbre escuro, que contém, em seu íntimo, tragédias e sofrimentos. Warren dominava as partituras de modo mais instintivo do que Hvorostovsky, mas ambos se impunham, além das qualidades vocais, pela presença gigantesca em cena.

No Rigoletto a que me referi, seus dons musicais, intelectuais e dramáticos se casam perfeitamente com a regência de Constantine Orbelian. O maestro americano de origem armênia oferece talvez a mais profunda versão dessa ópera, dentre as que me foram dadas a ver e ouvir. Sua concepção é analítica, mas não no sentido formalista e banal da música. Trata-se de uma análise que leva em conta o drama. Cada passagem é concebida com tempo e com cuidado, construída como uma subunidade que se encadeia no fluxo da história. Nada de um Rigoletto coruscante e incendiado. Antes, tudo avança com clareza, o que não apenas permite a audição distinta de cada naipe, mas que assenta as etapas da história tremenda numa sucessão absolutamente necessária.

Ora, Hvorostovsky se adéqua perfeitamente a essa concepção. Seu “Pari siamo” deixa de ser um monólogo de efeitos melodramáticos para se tornar uma inquietante interrogação sobre si mesmo. Há, ao longo da ópera, detalhes maravilhosos: a interrupção “Alcun è fuori” do dueto com Gilda, sua súplica “È là... non e vero?” e tantos outros.

A afinidade entre o protagonista e o maestro já faz, por si só, o grande interesse da gravação. A ela acrescentam-se os outros intérpretes. O duque de Mântua é interpretado por Francesco Demuro. Seu canto é solar, viril, insolente, com alegria de viver, terrivelmente sedutor. É, hoje, sem dúvida, um duque ideal [Ouça Demuro em Lucia di Lamermoor aqui].

Os baixos são sensacionais, ambos bem jovens. Andrea Mastroni como Sparafucile, tem um belo colorido granulado no timbre. Sem efeitos melodramáticos, confere gravidade assustadora ao assassino [Ouça Mastroni aqui, como Sarastro.] E Monterone! Esse papel pequeno é normalmente confiado a cantores de menores possibilidades. Suas poucas frases, porém, são essenciais. Aqui, foi confiado ao jovem Kostas Smoriginas, em começo de carreira, de voz impressionante [Ouça Smorignas no Stabat Mater de Dvorak.] Não conheço outra integral de Rigoletto na qual o velho conde demonstre tal presença.

Nadine Sierra é, hoje, uma Gilda solicitada pelos maiores teatros. Voz luminosa, agudos precisos e deliciosos, ela brilha no dueto de amor, no “Tutte le feste”, no final, e está claro, no “Caro nome” [Ouça aqui esta ária em sua interpretação.] Oksana Volkova, com voz sombria, que parece arrastar consigo como que um magnífico manto de sons harmônicos, Maddalena [Ouça aqui Volkova em Carmen.]

Eis um Rigoletto que fica, sem dúvida, marcado como uma gravação excepcional.