Refinamento e inventividade em “Brazilian Landscapes”

por Camila Frésca 28/09/2017

Um disco de música instrumental brasileira para a formação de flauta doce, percussão e violão. Assim é Brazilian Landscapes, gravado em dezembro de 2016, em Copenhagen, e que chega agora ao mercado brasileiro. O trabalho reúne Michala Petri, flautista dinamarquesa que possui prestigiada carreira internacional como solista e camerista; a percussionista e compositora norte-americana Marilyn Mazur, parceira de grandes nomes do jazz como Miles Davis; e o excelente violonista brasileiro Daniel Murray. A ideia do CD é do também violonista e produtor Lars Hannibal, que conheceu Murray em 2014, em Viena, durante a Classical Next. “Seu toque pessoal e arrojado chamou minha atenção. Imediatamente pensei na possibilidade de combinar o violão do Daniel com a maneira de tocar da Michala, além disso complementada com a incrível sensibilidade e inventividade de Marilyn Manzur, que eu sempre admirei em muitos outros trabalhos. Nos anos seguintes nos encontramos algumas vezes na Dinamarca e fomos amadurecendo este projeto tão especial”, escreve ele no livreto que acompanha o disco.

Tem razão Lars Hannibal em se impressionar com Daniel Murray. O jovem violonista, compositor e arranjador é um dos grandes nomes do violão brasileiro de sua geração. Ex-aluno de Edelton Gloeden e Paulo Porto Alegre, aos 15 anos conquistou o segundo lugar no Concours Internacional de Guitarre de Trédrez-Locquemeau (França). Desde então, sua atividade como solista e camerista só tem se incrementado. Daniel possui uma carreira intensa e tem um duo com Paulo Porto Alegre, é integrante do Trio Opus 12 e do Quarteto Tau. Da mesma forma, sua curiosidade em explorar diferentes repertórios já o levou a gravar música contemporânea (ele se especializou em técnicas estendidas para o violão), discos autorais e outro dedicado a Tom Jobim, com arranjos próprios. Isso sem falar nos trabalhos de câmara e colaborações com outros artistas. Daniel, aliás, é um ótimo arranjador, como fica evidente neste disco, do qual é autor de todos os arranjos.

“Nas nossas divagações passeamos por muitos lugares procurando peças que tivessem em comum a mesma expressão musical, tanto brasileira como clássica europeia”, afirma Lars Hannibal sobre a pesquisa para seleção do repertório do disco. “Como músico, o que mais me fascinou na música brasileira foi a enorme variedade de ritmos e expressões que você não acha nem no jazz nem na música clássica da Europa”, completa. Nas peças selecionadas para o disco, pode se perceber algumas vertentes da composição brasileira. Uma delas é a de compositores que são ao mesmo tempo mestres do violão brasileiro: Paulo Porto Alegre, cuja peça Sonhos, em duas versões, abre e fecha o disco; Paulo Belinatti, com Jongo e Pingue-Pongue; e o próprio Daniel Murray, autor de Cauteloso e de Canção dança. Há também mestres da música instrumental brasileira: de Hermeto Pascoal é a lúdica São Jorge; de Egberto Gismonti, um compositor muito apreciado pelos violonistas, temos o frevo Karatê e a linda A fala da paixão; um nome tanto inusitado na seleção é o de Ernesto Nazareth, com a deliciosa Fon-fon numa excelente versão. Há ainda dois dos maiores nomes da música brasileira: na seara popular, Tom Jobim, que comparece com Olha Maria, em sensível leitura para flauta e violão; e, de Villa-Lobos, temos os Choros nºs 2 e 5. Completa o disco as Oito miniaturas, de Antonio Ribeiro. Se o compositor mineiro não se encaixa exatamente em nenhuma das categorias anteriores, sua música dialoga perfeitamente com o restante do repertório. As peças são originais para piano, mas aqui parecem feitas desde sempre para flauta e violão – bem como estão longe de soar um eruditismo acadêmico, apresentando-se em perfeita combinação com as demais obras do disco.

Brazlilian Landscapes é um disco feito com um cuidado evidente, que vai da seleção das peças, passa pela gravação e pelo acabamento gráfico dos materiais, chegando aos arranjos e à interpretação. A sonoridade é bonita e original, e o resultado geral, bastante inventivo.

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