A Sala São Paulo aos pés de Anna Netrebko

O concerto mais esperado do ano foi exatamente o que dele se esperava. A um mês de completar 47 anos, e na plenitude da forma vocal, a suprema tsarina do mundo da ópera, Anna Netrebko, na última segunda-feira, dia 6, deixou a Sala São Paulo a seus pés.

Fazia muito tempo, por sinal, que não se via a Sala tão lotada – os ingressos para a apresentação promovida pelo Mozarteum Brasileiro esgotaram-se rapidamente, e a impressão era de que não havia espaço no local sequer para um alfinete.

De sangue cossaco, Netrebko surgiu como uma das estrelas comandadas por Valéri Guérguiev no Teatro Mariinski, de São Petersburgo, em meados dos anos 90 do século XX e, por duas décadas, conquistou as principais casas de ópera do planeta em papéis líricos e ligeiros, com incrível agilidade para as coloraturas.

Passaram os anos, trocamos de milênio, veio a maternidade e, a partir de 2013, com Leonora, em “Il Trovatore”, de Verdi, uma inflexão decisiva, na direção de papéis mais pesados – como se diz no mundo da ópera, de “spinto”. E, como o público paulistano pôde verificar, a virada foi muito bem sucedida. Anna Netrebko é um animal de palco, intenso e arrebatado, e talvez a carga dramática de seu novo registro vocal seja até mais adequada a seu temperamento cênico do que a coqueteria por vezes ingênua dos papéis com que começou a carreira.

De volume poderoso, e correndo com facilidade, a voz de Netrebko possui um timbre deslumbrante, homogêneo em todos os registros, com brilho nos agudos, solidez na região central e muita ressonância nos graves. Ainda que cantando em concerto, leva ao palco uma dramaticidade construída não apenas com gestos e trejeitos, mas, principalmente, com recursos vocais. Cada ária ou dueto traz um colorido específico, buscado em uma riqueza de matizes que parece superar as do arco-íris. Assim, a inesquecível Pace, pace mio Dio, de La Forza del Destino, de Verdi (o item mais próximo da Rússia no programa, pois a ópera estreou em São Petersburgo) foi um mundo sonoro completamente distinto da igualmente antológica Vissi d'arte, da Tosca, de Puccini. Mesmo cantando uma versão mutilada e desencontrada (lendo a partitura) do dueto Vogliatemi bene, de Madama Butterfly, de Puccini, ela conseguiu evocar e construir uma ambiência idílica e sedutora.

Anna Netrebko [Divulgação]
Anna Netrebko [Divulgação]

O fato é que, em seu estágio atual da carreira, Netrebko pode fazer o que lhe dá na telha – e usa e abusa desse direito. Em São Paulo, por exemplo, deu-se ao luxo de incluir no programa vários itens que, a rigor, serviriam melhor de bis – como, por exemplo, Il Bacio, de Luigi Arditi, que, muito sensivelmente, interpretou virando-se generosamente para os lugares do coro, lembrando-se de que quem comprou lugares na parte de trás da Sala também queria vê-la e ouvi-la.

Faz parte, ainda, dos direitos adquiridos da diva ter o marido no palco. Ninguém que enfrentou o frio paulistano da segunda-feira saiu de casa para ouvir o tenor azeri Yusif Eyvazov (pronuncia-se Iussíf Eivázov), 41. Mas o afortunado consorte estava lá, ocupando metade do programa. No dueto que abriu o concerto, Gia nella notte densa, do Otello, de Verdi, ficou evidenciado o abismo entre uma cantora de voz cheia de nuances e um cantor de emissão dura e monocórdia, cuja principal criatividade ficou reservada para a forma de lidar com os versos de Arrigo Boito, substituídos por uma sucessão de palavras italianas aparentemente escolhidas ao acaso. A letra de Granada, de Agustín Lara, também parece ter lhe apresentado dificuldades inesperadas. De bom, ficamos com sua potência vocal, a evidente química com Netrebko e um certo carisma e intensidade, que arrancaram aplausos de corações generosos especialmente no derradeiro item do programa, o dueto final de Andrea Chénier, de Giordano, e nas árias puccinianas E lucevan le stelle, da Tosca, e Nessun dorma, de Turandot.

Deve-se destacar, ainda, a bela sonoridade da Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, regida por Jader Bignamini – conhecido do público paulistano pois, em 2013, dividiu com John Neschling a batuta em récitas de Il Trovatore, de Verdi, e La Bohème, de Puccini. Bignamini impressionou ao dirigir o programa de cor, mas cometeu um descuido ao permitir à orquestra que encobrisse Netrebko em Heia, in den Bergen, de Emmercih Kálmán – o púbico só não ficou mais incomodado com isso porque acompanhava com deleite as voluptuosas coreografias que a soprano desenvolvia durante a ária.

Sim, Netrebko não só cantou, como dançou e fez, basicamente, o que quis naquele palco. No inescapável bis O mio babbino caro, de Gianni Schicchi, de Puccini, deu um giro de 360 graus enquanto segurava um agudo, para se certificar de que todo o teatro a ouviria. E encerrou transformando a Sala São Paulo em salão de gafieira, ao bailar abraçada com Eyvazov em nada menos que O sole mio, canção napolitana convertida em dueto romântico. Foi kitsch a não mais poder. Mas não havia muita gente disposta a se queixar.