“Sexta” de Mahler coroa trabalho artístico do Instituto Baccarelli

por Nelson Rubens Kunze 05/03/2018

O que uma casinha à margem de um lago bucólico do interior da Áustria tem a ver com uma das maiores favelas da cidade de São Paulo? A casinha à margem do lago é onde Gustav Mahler passava as suas temporadas de verão, no início do século XX. Ali, entre 1903 e 1904, o compositor criou a sua Sinfonia nº 6. Já a favela de São Paulo é a comunidade de Heliópolis, que há mais de 20 anos abriga o Instituto Baccarelli, uma entidade voltada para a promoção social por meio do ensino e difusão da música clássica.

Pelo menos desde o sucesso da Orquestra Jovem Simon Bolívar do projeto social venezuelano El Sistema caiu por terra aquela ideia de que as grandes sinfonias românticas não seriam adequadas para o trabalho com orquestras jovens (confesso que eu mesmo era adepto dessa crença – e ela tem mesmo algo de verdadeiro, já que as obras clássicas, por sua estrutura e transparência, parecem mesmo mais apropriadas para estudo de afinação, articulação, dinâmica e equilíbrio sinfônicos). Pois no último domingo (dia 4 de março), no Theatro Municipal de São Paulo, as orquestras do Instituto Baccarelli demonstraram que, também por aqui, aquele velho postulado já não se aplica mais: foi muito boa a interpretação da Sinfonia nº 6 de Gustav Mahler comandada por seu regente titular Isaac Karabtchevsky.

Para dar conta do grande efetivo orquestral – 115 músicos! – o Instituto Baccarelli agregou à Sinfônica Heliópolis a sua Orquestra Juvenil. Claro que um importante fator do sucesso é o trabalho do maestro Karabtchevsky, decano brilhante da regência nacional, que tem forte identificação com o repertório mahleriano. Mas não é só isso – essa Sexta alcançou um grau de maturidade das orquestras de Heliópolis até então inédito. E o Theatro Municipal, lotado, envolveu-se na trama musical e acompanhou concentrado, durante uma hora e meia, a interpretação da exigente obra (sem palmas entre os movimentos!).


Orquestra do Instituto Baccarelli sob direção de Karabtchevsky, no Theatro Municipal [foto: Revista CONCERTO]

Sexta de Mahler é a sinfonia trágica. O primeiro movimento já ataca com golpes ritmados que prenunciam ameaças e perigos. Mesmo o segundo tema, uma melodia ascendente nas cordas de caráter mais lírico, tem gosto estranho. E essa batalha existencial permeia toda a obra – com apenas um movimento de um pouco de repouso, o Andante – para finalmente sucumbir nos famosos golpes de martelo do último movimento, os golpes de um destino trágico e inevitável. Esse movimento final, com mais de meia hora de duração, é um dos mais longos de toda a história da música.

São inúmeros os desafios da sinfonia. Há solos exigentes e complexas e longas passagens, com grandes desafios para a manutenção de um discurso sonoro orgânico. Com sopros e percussão competentes e cordas coesas – e grande energia e concentração dos músicos –, Karabtchevsky soube explorar bem as potencialidades do grupo, com andamentos, articulações e dinâmicas cuidadosas, atingindo um resultado muito satisfatório. A Sinfônica Heliópolis alcançou o seu melhor desempenho em um concerto realmente emocionante.

Voltando à pergunta do início, o que o lago Wörthersee tem a ver com Heliópolis? A julgar pelo que se ouviu no concerto do Theatro Municipal, tudo! Os mistérios da existência humana, nossas dúvidas e anseios, são mesmo, senão universais, comuns a nossa civilização ocidental. A música, como já ficou demonstrado em incontáveis casos, é mesmo uma das mais poderosas ferramentas para a construção de nossa identidade e para a superação de nossas diferenças.