Suisse Romande: Master class na Sala São Paulo

Há concertos que valem por master classes. A apresentação da Orchestre de la Suisse Romande, na Sala São Paulo, na última segunda-feira, dia 14, na série da Sociedade de Cultura Artística, foi daquelas ocasiões que não apenas ficam na memória de quem teve o privilégio de assistir, como ajudam a estabelecer paradigmas de excelência.

No ano de seu centenário, a orquestra de Genebra trouxe ao Brasil um programa de música da época de sua fundação, focando o ambiente musical europeu da virada do século XIX para o XX, em seus dois principais polos de atração – o francês e o germânico. Abrindo a noite, o Prélude à l'après-midi d'un Faune, de Debussy, foi um belo tributo ao centenário de falecimento do compositor, um primor de refinamento e transparência – se é injusto destacar qualquer naipe em uma orquestra tão equilibrada, seria omissão terrível não ressaltar a qualidade de som e de fraseado das madeiras da Suisse Romande, aqui como no resto do programa. Isso sem falar no gestual claro e preciso do britânico Jonathan Nott - que, nas temporadas do Mozarteum Brasileiro, já causara ótima impressão, à frente da Sinfônica de Bamberg, e assumiu a direção musical e artística da orquestra suíça no começo deste ano, em janeiro.

A Orchestre de la Suisse Romande [Divulgação]
A Orchestre de la Suisse Romande [Divulgação]

Depois, subiu ao palco outro velho conhecido do público paulistano, o pianista Nelson Goerner. Sua leitura do Concerto em sol, de Ravel, ressaltou o lado mecânico e virtuosístico da partitura, com um terceiro movimento executado com velocidade de arrepiar os cabelos. No Adagio assai, em que o piano se entrelaça com as linhas do corne inglês e das outras madeiras, Goerner foi de um lirismo antes sereno do que rasgado, o que pode não contentar todos os gostos. Difícil, contudo, não se render a seu bis, o sinestésico e baudelairiano prelúdio Les sons et les parfums, que parece estabelecer uma linha evolutiva do piano parisiense no século XIX, ligando seu autor, Debussy, ao mais francês de todos os poloneses, Chopin – compositor de predileção de Goerner.

Enfim, de uma orquestra cujo fundador foi o mítico Ernest Ansermet (1883-1969), não se esperaria menos do que excelência no repertório francófono. E, dada a alta qualidade do Bruckner regido por Nott com Bamberg por aqui, em anos anteriores, a expectativa para Uma Vida de Heroi, de Richard Strauss, na segunda metade do concerto, era elevada.

Depois da transparência e delicadeza da música francesa, heavy metal alemão, certo? Sim e não. Strauss, obviamente, constroi um mundo absolutamente distinto do de Ravel e Debussy, rico em massas sonoras e texturas espessas. No Brasil, grande número de músicos no palco tem sido a senha para os regentes “enfiarem a mão” e exigirem das orquestras sonoridades tonitruantes, esperando subjugar a plateia exclusivamente pelo volume dos decibéis.

Nott, felizmente, não pertence a essa estirpe. Dirigindo o longo poema sinfônico straussiano de cor, soube encontrar também suas matizes e sutilezas, e caracterizar distintamente cada um dos seis episódios da obra. Como resultado, pelo contraste, os momentos altissoantes causavam ainda maior impacto. Costuma-se acreditar que a partitura é autobiográfica, e que Strauss retrata a esposa na dificílima parte para o primeiro violino da orquestra. Se for assim, a temperamental Pauline de Ahna dificilmente poderia pedir defensor melhor do que Svetlin Roussev, o spalla búlgaro da sinfônica, que enfrentou o solo com brio, excelência técnica e sonoridade firme. No fim, como costuma acontecer com os suíços, a Orchestre de la Suisse Romande demonstrou que seu alemão é tão fluente como seu francês.

Se, em 2009, sob regência de Marek Janowski, eles já tinham feito excelentes concertos por aqui, agora a Suisse Romande voltou a encantar. Só resta torcer para que eles não demorem tanto tempo para nos visitarem de novo. Isso é que é orquestra!