“Tosca” tem montagem competente no Rio de Janeiro

por Nelson Rubens Kunze 28/09/2017

Não parece ser uma produção cara, nem é opulenta ou monumental. Mas é criativa, de bom gosto e, sobretudo, funciona. Em tempos de vacas magras, é muito boa a encenação de Tosca, de Puccini, que está em cartaz no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. André Heller-Lopes, que concebeu e dirigiu cenicamente a montagem, soube “contar a história”, construindo, com beleza e emoção, o arco dramático do espetáculo.

Uma enorme escultura do busto de Cristo crucificado serve de fio condutor, dominando todos os atos (os cenários foram realizados por Manoel Puoci a partir dos desenhos de Juergen Kirner, feitos para a produção original do Landestheater de Salzburg). De forte efeito, a figura transmite a opressão moral e os medos, mesclados à falsidade, de um estado autoritário e repressor. O recurso também serve para criar cenas de grande impacto visual, o que é reforçado por uma competente iluminação (Fábio Retti) e caprichados figurinos (Marcelo Marques). No terceiro ato, com a enorme figura de Cristo tombada no meio da cena, abre-se lentamente uma janela de luz no fundo, inicialmente com um azul escuro da noite, passando progressivamente para o amarelo do dia. E é diante desta imagem contrastante, sóbria e brilhante, que se consuma o destino de Cavaradossi e Tosca...

O destaque vocal foi o cantor Eric Herrero, como Mario Cavaradossi, que fez de sua ária, no Ato 3, um dos pontos altos do espetáculo. Foi bom o Scarpia do baixo-barítono chileno Homero Pérez-Miranda, especialmente por seu corpo físico adequado e por sua desenvoltura cênica. E o que falar da Tosca de nossa grande dama do canto lírico Eliane Coelho? Sempre com talento e magnetismo ímpar, Eliane esbanjou interpretação e força dramática. Completaram o elenco Murilo Neves (fazendo o revolucionário Cesare Angelotti e o carcereiro), Ciro D'Araújo (Sacristão), Geilson Santos (Spoletta), Fabrizio Claussen (Sciarrone) e Carolina Morel e Nicole Costa (como Pastores).

A ópera foi apresentada pelo Coro e pela Orquestra Sinfônica do TMRJ, conduzidos pelo maestro Marcelo de Jesus. Apesar de no geral ter tido um bom desempenho (assisti à récita do dia 27 de setembro), a orquestra em algumas passagens soou excessivamente forte. Uma sobre-exposição de madeiras e metais (pelo menos no lugar do qual a assisti, no balcão) impediu também uma maior amálgama sonora.

A montagem de Tosca no Municipal do Rio dá provas, mais uma vez, do grande potencial artístico daquele teatro. É pena que vivamos tempos tão conturbados e instáveis: antes do início do espetáculo, a direção da casa agradeceu publicamente aos artistas e técnicos envolvidos na produção, já que, novamente, salários estão atrasados e sem previsão de pagamento...

[Tosca terá ainda uma última apresentação, com outro elenco, na sexta-feira dia 29 de setembro, às 20 horas.]