Um brinde à arte personalíssima de Olga Praguer Coelho

por João Marcos Coelho 10/07/2018

A Guitarcoop, uma iniciativa pioneira no Brasil que vem revolucionando o modo de produção e multidistribuição de gravações, já acumula dezenas de lançamentos de registros tanto contemporâneos quanto de resgate de performances indispensáveis à história do violão – objetivo fundamental da empreitada – em nosso país, que estavam até agora inacessíveis.

O último lançamento é daquelas gemas absolutamente esquecidas e que permaneceriam injustamente apenas na lembrança dos que tiveram o privilégio de assistir a performances de Olga Praguer Coelho, cantora e violonista nascida em Manaus em 12 de agosto de 1909. Ela chegou aos 98 anos (morreu em 25 de fevereiro de 2009).

Uma longa e fabulosa história de vida e de arte, contada em detalhes por seu filho Miguel no encarte do recém-lançado CD The Art of Olga Praguer Coelho. É o segundo volume da série “historical recordings” (a primeira foi com os míticos registros dos irmãos Abreu, no ano passado).  Embora nascida no Amazonas, aos 3 anos Olga se mudou para Salvador. O pai, médico, mudou-se de novo com a família para o Rio de Janeiro quando Olga estava com 12 anos e já estudara piano com a mãe.

No Rio, os horizontes se abriram para sua paixão pela música folclórica e especialmente pelo violão clássico. Canto, estudou com Gabriela Besanzoni; violão, com Patrício Teixeira. “As primeiras apresentações”, conta Miguel, “aconteceram na Rádio Clube do Brasil em 1927”. As primeiras gravações no selo Odeon são de 1929 (uma delas, a divertidíssima A mosca na moça, que abre o CD, dá a medida do talento especialíssimo dela, cantando as letras numa vertiginosa velocidade, afinação impecável e um violão danado de bom no acompanhamento).

Olga Praguer Coelho [Reprodução]
Olga Praguer Coelho [Reprodução]

Resumindo: na década seguinte, estreou em Buenos Aires (1935), gravou muitos discos (cinco performances no CD são desta década) e já espelham seu ecletismo, com canções em espanhol, “Olga voou no Zepelim do Rio para a Alemanha, onde assistiu à abertura das Olimpíadas de verão em Berlim e fez sua primeira turnê pela Europa”, conta Miguel. Bela Bartók ficou fascinando ouvindo-a interpretar o ponto de macumba Xangô em 1936 em Budapeste. Duvida? Então confira ouvindo a última faixa deste notável CD, 3’58 de pura magia (destaque para o superagudo límpido, fortíssimo e afinado que fez delirar multidões mundo afora). Ela foi também à Nova Zelândia, Austrália, Cingapura, Java e África do Sul. Cidadã do mundo, artista internacionalmente aplaudida pela voz impressionante e pelo violão.  Em 1941, o casal Olga e Gaspar Coelho mudou-se para Nova York. Lá, sucesso retumbante também. Cantava duas vezes por semana em um programa na rádio CBS coast to coast por ondas curtas. La Cucaracha foi hit internacional em sua voz (no CD, uma dessas performances, de 1942).

Em novembro de 1943, Olga conheceu Andres Segovia em Nova York. O romance foi arrebatador; “ambos deixaram seus respectivos cônjuges”, diz Miguel, “e viveram juntos por vinte anos”. Segovia fez muitos arranjos para canto e violão especialmente para sua Olga (vários deles, como Canción Andaluza e Asturiana, estão no CD). “Ela foi a primeira a usar, em 1947, em Nova York, cordas de náilon em vez das cordas de tripa em apresentação no Town Hall”.

Seu primeiro LP data de 1954, o último de 1960. Em meados da década de 1970, voltou ao Rio de Janeiro, morando num apartamento nas Laranjeiras em prédio construído no terreno da casa onde morou com sua família.

Vinte e duas performances antológicas que justificam seu lugar único na música brasileira do século 20, como cantora e como violonista.

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