Verdi futurista aterrissa no Theatro Municipal do Rio

por Nelson Rubens Kunze 30/04/2018

Ricos recursos de projeção em 3D marcam a encenação de Um baile de máscaras, de Verdi, ópera que abriu na sexta-feira, dia 27 de abril, a temporada lírica do Theatro Municipal do Rio de Janeiro. Trata-se de uma produção do Teatro de Kiel, da Alemanha, onde o título estreou em janeiro passado, com concepção e direção cênica do ítalo-brasileiro Pier Francesco Maestrini. No programa, o diretor anota que o projeto veio do desejo de fazer algo de novo – “um espetáculo cenograficamente ágil, mas de grande impacto visual” – para livrar o Teatro de Kiel do rótulo “pouco lisonjeiro” de tradicional, e assim também atrair um público mais jovem. Mas ressalva: “Com o espetáculo desta noite, tentei criar um mundo futurístico que atingisse o público com estímulos visuais inusitados, mantendo-me fiel à minha maneira de reinterpretar as óperas: buscar, ao máximo possível, a adesão ao libreto, deixando inalteradas as relações entre os personagens e respeitando sempre a coerência narrativa”. [Maestrini trabalhou no Theatro Municipal de São Paulo nos primeiros anos da gestão Neschling, dirigindo títulos como Don GiovanniCavalleria Rusticana e Jupyra. Em 2016, dirigiu um Lo Schiavo no Municipal carioca.]

E é verdade que é altamente impactante o resultado das projeções, de cores predominantemente verdes. Logo o prelúdio do Ato I traz uma explosão de belos efeitos visuais, mostrando o Rei Gustavo envolto, sozinho e perdido, em uma atmosfera de ondas luminosas. A boca de cena se apresenta como uma imensa tela digital, e, sobre o palco, o palácio real se transforma em um espaço que poderia ser a sala de comando de uma nave espacial. Os personagens vestem figurinos com luzes, e pela cor das luzes se distinguem os conspiradores. Ao longo da ópera, contudo, as projeções também servem para desenhar ou ambientar cenários convencionais, como a floresta do Ato II ou o próprio salão do baile da última cena, com suas colunas e ornamentos.

Imagem da ópera Um baile de máscaras no Theatro Municipal do Rio de Janeiro [Foto: divulgação]
Imagem da ópera Um baile de máscaras no Theatro Municipal do Rio de Janeiro [Foto: divulgação]

Seja como for, o que se pretende é contar uma história, e as cenas futurísticas dão suporte coerente à narrativa, como quer Maestrini. Encenações que deslocam a trama no espaço ou no tempo não são condenáveis, ao contrário: são esses deslocamentos que permitem novas leituras e abordagens interpretativas.

Os efeitos da projeção multidimensional, com suas explosões de raios e feixes de luz criando as mais variadas dinâmicas espaciais, são mesmo impressionantes de ver. As visões futurísticas da ficção científica, porém, embutem uma mensagem de racionalidade e de artificialismo que está muito longe do espírito romântico que cerca a ópera. O anseio romântico é o da natureza, não o de fractais ou imagens holográficas. Na montagem de Maestrini, contudo, poderíamos argumentar que, por oposição, o artificialismo do ambiente futurista potencializa os sentimentos humanos de amor, ciúmes, vingança e arrependimento.

Uma das desvantagens no uso de projeções é o fato de que a cena tem que ser mantida escura – as projeções perdem efeito em ambientes claros. Assim, toda a ópera tem um ar sombrio. E a penumbra comprometeu a compreensão da cena da vidente Ulrica, em que, à exceção da própria feiticeira, não se vislumbrava quem era quem. Não creio que aqueles que não conhecessem o libreto (os jovens que o teatro alemão quer atrair) tivessem distinguido o rei disfarçado, escondido na escuridão, desejoso para ouvir as confidências de Amelia...

Mas, se no geral a montagem futurista funcionou, trazendo novos ares para a ópera, a performance artística ficou aquém da realização cênica. Três cantores solistas com características vocais muito distintas não proporcionaram a coesão vocal e dramática desejável. O barítono brasileiro Rodolfo Giugliani fez Renato, em uma interpretação cuidadosa, diferenciando-se de seus colegas nos fraseados e nas dinâmicas. Amelia foi cantada pela soprano Susanna Branchini, de forte presença e voz poderosa, entusiasticamente aplaudida em suas marcantes intervenções. Já o tenor Leonardo Caimi, que fez o papel do rei Gustavo, iniciou com sérios problemas de emissão e afinação no primeiro ato, melhorando, contudo, ao longo da récita.

A jovem soprano Lina Mendes fez Oscar, com ótima desenvoltura vocal e cênica. A feiticeira Ulrica foi interpretada com consistência pela competente Denise de Freitas. E a Orquestra e o Coro do Theatro Municipal do Rio de Janeiro foram bem, conduzidos com ritmo e segurança pelo titular Tobias Volkmann, que também respondeu pela direção musical do espetáculo.

Este Um baile de máscaras é a primeira ópera encenada no Theatro Municipal do Rio de Janeiro desde a Tosca de setembro passado. Como é sabido, o teatro tem sofrido as consequências da crise brasileira, ampliada no Rio de Janeiro pela ação de governantes criminosos. Apesar das persistentes restrições orçamentárias, contudo, o novo presidente da Fundação Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Fernando Bicudo, vê chances de programar uma intensa temporada durante o ano, também para recuperar o prestígio do palco lírico mais tradicional do país.