Neojiba: o exemplo da Bahia para o Brasil

Em um ano em que os gestores brasileiros parecem competir para ver quem causa a maior devastação no meio musical, o décimo aniversário de um programa como o Neojiba (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia) soa como a mais animadora das improbabilidades. Parte mais visível do projeto, a Orquestra Juvenil da Bahia tocou no último sábado na Sala São Paulo, no âmbito do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão, sob o comando de seu criador e diretor – Ricardo Castro.

Não, não se trata de mais uma das belas orquestra jovens que vêm florescendo por aqui nos últimos anos – embora já tenha feito turnês internacionais, e se apresentado ao lado de sumidades como Midori, Maxim Vengerov, Jean-Yves Thibaudet, Maria João Pires e uma certa Martha Argerich. Na edição de julho da Revista CONCERTO, João Luiz Sampaio entrevista Castro e dá alguns números do programa. O Neojiba beneficia, direta ou indiretamente, 4.300 crianças, adolescentes e jovens, entre 4 e 29 anos – a maioria em situação de vulnerabilidade social; 85% se autodeclaram pardos ou negros, e 74% das famílias conta com renda de até dois salários mínimos.

Declaradamente inspirado no El Sistema, da Venezuela, o programa tem como ponto de partida a prática coletiva, e o conceito de multiplicação: no momento em que começa a aprender um instrumento, cada membro do Neojiba leva esse aprendizado a outras pessoas, outros núcleos.

Quando essa orquestra com as caras e as cores do Brasil subiu ao palco da Sala São Paulo para executar o Prélude à l’après-midi d’un faune, de Debussy, a primeira surpresa foi a disposição dos instrumentos: harpas e sopros à frente, cordas atrás. Depois, a falta de estantes de partituras. A peça foi tocada de cor, sem regente, e com um esboço de coreografia, com as cordas se levantando em determinado instante (quando a orquestra se apresenta em Salvador, a coreografia de Lia Robatto, incluindo evoluções dos músicos em cena, é executada por inteiro). O nervosismo, por certo, traiu alguns dos executantes, mas a interpretação não foi desprovida de beleza.

Em seguida, entrou em cena Ricardo Castro, para dirigir, do teclado, o Concerto para piano nº 2, de Beethoven. E será que, aqui no Brasil, temos a real dimensão da grandeza, e valorizamos da forma devida e merecida um artista do quilate desse pianista baiano? Comando do teclado, maturidade musical, profundidade interpretativa, senso de estilo: Castro é um mestre consumado de sua arte. Fazendo música desse nível, poderia “só” tocar piano, e desfrutar dos louros de uma bela carreira internacional. Mas cruzou o Atlântico de volta, da Europa para o Brasil, e implementou um programa que mereceria ser emulado e replicado em todas as unidades da federação.

O Neojiba não apenas é inspirado no El Sistema, como busca intercâmbio com a iniciativa do país vizinho. Assim, no concerto de Beethoven, o “spalla” foi o jovem venezuelano Eduardo Salazar. Salazar demonstrou uma sonoridade rica no bis que deu com Castro, a Dança dos espíritos abençoados, da ópera Orfeu e Eurídice, de Gluck (que Nelson Freire sempre toca, na versão para piano solo, e que Emmanuel Pahud executou recentemente, da forma original, para flauta, na série da Cultura Artística), e assumiu a batuta na peça mais ambiciosa do programa: a Quinta sinfonia de Shostakovitch.

Nos dois primeiros movimentos, a orquestra ainda se revelou algo titubeante, como que sentindo a acústica da Sala São Paulo e se experimentando dentro dela. A partir do terceiro movimento, porém, os jovens músicos parecem ter adquirido confiança, atingindo resultados surpreendentes e empolgantes. Salazar construiu um belo arco dramático no Largo, o coração emocional da obra, jogando de maneira exemplar com as dinâmicas da partitura, e soube conduzir os instrumentistas ao longo das dificuldades da partitura. Pelo vigor, energia e capacidade de comunicação, é um nome a ser observado, que talvez fosse bom ver por aqui com maior frequência.

Ao final, nem o mais cético e empedernido dos corações presentes à Sala São Paulo conseguiu não se emocionar e se render ao exemplo oferecido pelos bravos talentos vindos da Bahia. Se o Brasil de hoje é o domínio de trevas que parecem se adensar e aprofundar sem remissão, o Neojiba permite entrever a luz da esperança que há de nos conduzir ao futuro.