Helder Parente, talento infinito

por Rosana Lanzelotte 21/03/2017

Minha vida musical foi marcada pelo convício com o grande músico e amigo Helder Parente, que nos deixa de forma tão inesperada e prematura.

Nosso primeiro encontro aconteceu durante a Oficina de Curitiba, em 1974, onde ele, recém-chegado de sua especialização no Mozarteum (Salzburg), era professor e eu aluna. Denis Borges Barbosa, outro que nos abandonou cedo demais, havia idealizado um espetáculo chamado “A Rainha Virgem” com repertório elisabetano, que foi apresentado com grande sucesso no Guairinha. Além de tocar flauta magistralmente e cantar como um menestrel, Helder coreografou as pavanas e galhardas que dançamos. Sua presença era magnética, carismática, um verdadeiro animal de palco – “bête de scène”, como dizem os franceses.

Nesse mesmo ano, Myrna Herzog e eu o chamamos para integrar o conjunto ao qual demos o nome de Quadro Cervantes. No ano seguinte, Clarice Szajnbrum se juntou a nós para formar o grupo que atuou durante 15 anos. Fizemos turnês por todo o Brasil, levados pela Rede Nacional de Música, da Funarte gerida por Edino Krieger, e pelo Circuito Sulamérica. Gravamos dois discos, incensados pela crítica, que hoje fazem a alegria dos que os acham no youtube. Além do talento infinito, Helder enriquecia as interpretações com ideias, instrumentos. Apareceu um dia com um “gemshorn” que ele mesmo havia fabricado, outra vez trouxe uma viola-de-roda encomendada na Europa. Ensinava-me a tocar castanholas, dava aulas de flauta doce a Myrna, e com ela aprendia viola da gamba.

A curiosidade o levava a descobertas de repertórios e instrumentos, mas não se limitava à música antiga. Presenteava-nos com partituras contemporâneas, tocávamos com frequência a sonata a ele dedicada pelo compositor e musicólogo americano Colin C. Sterne (1921-2008), inspirou Ronaldo Miranda a escrever Cantares, dedicada ao Quadro Cervantes em 1986.

Helder incentivou Myrna a fundar, a partir de 1983, a Academia Antiqua Pro-Arte, a primeira orquestra barroca da América Latina, por ela dirigida, e na qual tivemos juntos a vivência extraordinária de tocar, pela primeira vez no Brasil, os concertos de Brandenburgo de Bach com instrumentos de época.

No início da década de 1990, Myrna e eu fomos morar fora do Brasil, e Helder levou o Quadro Cervantes para outras aventuras, com a colaboração preciosa de Nicolas de Souza Barros e Mario Orlando. Gravaram, ainda com Clarice Szajnbrum, dois CDs, um dos quais comemorativo dos 500 anos do Descobrimento. Essa nova formação participou também do Sonora Brasil, Circuito Nacional de Música organizado pelo Sesc, que resultou em outro CD (2008).

Helder é reverenciado pelos pesquisadores de música e educação de todo o Brasil por inestimáveis contribuições à área. Especializado no método Orff, mesclava-o com o método Gazzi e temperava-o com parlendas e ditados da cultura popular brasileira. Foi professor do Conservatório Brasileiro de Música, dos Seminários de Música Pro-Arte e da Unirio. Formou várias gerações de músicos, que estão órfãos de seu generoso mestre. Não recebeu, entretanto, o título de Doutor, que tanto teria merecido.

Vai Helder, tocar, cantar e dançar com os anjos, enquanto aqui choramos a sua perda.